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publicado em 07/08/2013 às 11h46:00
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Foto: Marcelo Brandt/UnB Agência
Foto: Divulgação/SBP
Dioclécio Campos Júnior é médico, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria e representante da SBP no Global Pediatric Education Eduardo da Silva Vaz, Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
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Dioclécio Campos Júnior é médico, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria e representante da SBP no Global Pediatric Education
Eduardo da Silva Vaz, Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

O governo está sem rumo. Tenta iludir, não consegue. Recorre à propaganda promocional com dinheiro público. Perde, porém, o prestígio que acreditava intocável. Apostou na ingenuidade do povo brasileiro. Investiu no espetáculo, no circo, distribuiu pão. Acreditou na magia de inúmeros coliseus erguidos para fascinar supostos rebanhos. Não reverteu a explosão da consciência nacional. Ficou claro que a sociedade não se deixa levar por engodos que apostam na oligofrenia de sua gente.

O chamado núcleo duro, leia-se cúpula que comanda, ignora o sentimento dos brasileiros. Persiste no desrespeito ao cidadão. Fecha os ouvidos à voz do povo. Desdenha clamores por direitos renegados. Com arrogância ditatorial, simula estar falando em nome do pensamento coletivo. São estratégias de reeleição, único objetivo quer alcançar a qualquer custo.

As ações anunciadas insultam os valores da cidadania. Prova maior é o programa Mais médicos. Além de basear-se em argumentos improcedentes, viola direitos fundamentais. A interiorização de médicos é indissociável da interiorização de condições para o exercício da medicina. Do contrário, frustram-se expectativas de quem vive nos bolsões de miséria ou na pobreza batizada de classe média. Mandar somente médicos, e despreparados, para rincões humilhantes que mancham a bandeira nacional é atitude de quem está enganado ou querendo enganar.

O que o povo reivindica é "saúde padrão Fifa". Não basta enviar jogadores e técnicos para disputarem as partidas da Copa. É preciso construir estádios de qualidade, setor hoteleiro digno, transporte coletivo decente, e qualificar recursos humanos para atendimento que o público merece. Iguais requisitos devem ser também incluídos em projetos formulados para a saúde. A população consciente não se ilude com medidas paliativas. Exige qualidade. Requer construção de unidades de saúde modernas, bem equipadas e de fácil acesso a todos, como os estádios. Quer mobilidade aérea para portadores de doenças graves a fim de que sejam tratados nos mesmos centros de que se servem os governantes. De nada vale contratar médicos mal formados ou ainda em formação para encenar atendimento aos carentes. Puro descaso.

A maior parte das doenças dos pobres é produzida pelas condições de pobreza em que nascem, crescem e sofrem. Uma forma de tortura social a que são submetidos sem cessar. A presidente da República bem o sabe. Entende de tortura. Médico não é profissional para tratar de torturados a fim de que sigam sobrevivendo na mesma masmorra. A ação que realmente resolve tal ignomínia é o fim da tortura. Chega de manter brasileiros na masmorra social. Libertação humana verdadeira não é humanização do SUS, entendida pelos gestores como "cubanização" da medicina.

Moradia decente, água potável, rede de esgotos, higiene ambiental, segurança, nutrição saudável, escola de alto nível são as exigências de que a "Fifa da saúde nas ruas" não vai mais abrir mão para realizar a Copa da reeleição em 2014. Médico não faz tratamento da água, não constrói casas, não entende de esgoto, não mata mosquito, não asfalta ruas, não higieniza ambiente. O máximo que sabe fazer é tratar das vítimas da tortura social, o que é eticamente discutível.

Por tudo isso, o Congresso Nacional há de exercer seu papel. Não pode ser cúmplice de mistificação reeleitoreira, de cunho ditatorial. O governo não ouve opiniões nem sugestões de quem entende de assistência médica qualificada. Não respeita a autonomia das universidades. Não valoriza a residência médica, mecanismo de capacitação profissional criado no Brasil desde a década de 1960, representando o pouco que ainda resta de perspectiva concreta para a adequada capacitação do desempenho médico no país. Não respeita o direito dos cidadãos aos mesmos recursos de saúde que privilegiam os ocupantes do poder.

Medicina não é sacerdócio. É profissão, a despeito de ainda não legalmente regulamentada no país. O governo não a aceita como carreira de Estado, modelo de países desenvolvidos. Insiste em banalizá-la, obrigando agora o estudante a atuar como médico no âmbito das masmorras sociais. Não é assim que se forma profissional qualificado. Não é assim que se promove a saúde das pessoas carentes de tudo.

O ministro da Educação diz que a medida visa humanizar a medicina. Aborda assunto que escapa à sua competência. O ministro da Saúde afirma que há médicos em lugar errado. Certamente fala de si mesmo. A doença que acomete o governo é grave. Mitomania. Mais médicos não vão curá-la.

Fonte: CFM
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