Ciência e Tecnologia
publicado em 20/05/2013 às 09h24:00
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Uma vacina contra a febre reumática deve começar a ser testada em seres humanos ainda este ano por pesquisadores do Instituto do Coração (InCor), da Universidade de São Paulo (USP).

Experimentos feitos em roedores e em pequenos porcos sugerem que o imunizante é seguro e tem capacidade de induzir uma resposta imunológica específica contra a bactéria Streptococcus pyogenes.

Na maioria dos infectados, esse patógeno causa apenas dor de garganta. Em crianças predispostas, porém, o contato com a S. pyogenes pode desencadear um quadro autoimune. Na tentativa de se defender da bactéria, o sistema imunológico começa a atacar tecidos do próprio organismo - o coração é o principal alvo.

" Isso acontece porque partes da bactéria têm sequências de aminoácidos e a conformação de algumas proteínas muito parecidas com as existentes nas válvulas cardíacas" , explicou Luiza Guilherme, pesquisadora do InCor e coordenadora da pesquisa.

A doença também pode causar um quadro de dor nas articulações conhecido como poliartrite, que costuma melhorar com o tempo. Mas as lesões nas válvulas cardíacas são progressivas e permanentes - levando, cedo ou tarde, à necessidade de cirurgia corretiva.

" Quando o paciente é operado pela primeira vez ainda criança, a chance de precisar passar por várias cirurgias ao longo da vida é grande. Por isso a febre reumática é uma das doenças com tratamento mais caro no Brasil e no mundo" , afirmou Guilherme.

Estima-se que apenas 3% ou 4% das pessoas sejam suscetíveis a desenvolver doença autoimune após a infecção pela S. pyogenes. Ainda assim, o custo do tratamento da febre reumática para o Sistema Único de Saúde (SUS) fica atrás apenas do gasto com a Aids. Em 2007, segundo a pesquisadora, foram US$ 30 milhões para custear o tratamento clínico da doença e outros US$ 60 milhões para cirurgias cardíacas. O Ministério da Saúde não tem levantamento mais recente.

No InCor, onde são atendidos cerca de 600 pacientes com a doença reumática cardíaca por mês, 2 mil pessoas estão na fila para fazer a cirurgia valvular. Quase 40% dos operados são crianças.

Veja a íntegra do estudo

Fragmento mínimo

A busca por um antígeno da bactéria capaz de induzir uma resposta imunológica protetora começou no ano 2000, com apoio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), da FAPESP. Atualmente, a pesquisa é realizada no âmbito do Instituto de Investigação em Imunologia, um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) instalados em São Paulo e apoiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

" O primeiro passo foi definir o epitopo, ou seja, o fragmento mínimo da bactéria capaz de induzir uma resposta imunológica. Para isso, analisamos o soro de indivíduos normais, que tiveram contato com a bactéria e não desenvolveram a doença autoimune. A ideia era descobrir com qual parte da bactéria o organismo reagia" , contou Guilherme.

Dentro da chamada proteína M molécula secretada pela parede externa da bactéria os cientistas identificaram um grupo de 55 resíduos de aminoácidos capazes de serem reconhecidos pelos anticorpos e linfócitos do sistema imunológico humano.

" A proteína M tem uma região ' A' que está em constante mutação. Os resíduos de aminoácidos vão se alterando e dando origem a novas cepas de bactérias. Tem também uma região ' B" , que é a que desencadeia o quadro autoimune. Mas há ainda as regiões ' C' e ' D' , que são iguais em praticamente todas as cepas e não causam a doença. Nós identificamos a sequência de aminoácidos da vacina na região ' C'" , contou a pesquisadora.

Uma versão sintética da sequência de aminoácidos foi produzida em laboratório e injetada em diversos modelos de estudo com camundongos. Um dos experimentos foi feito com uma linhagem transgênica de roedores que expressavam moléculas humanas do sistema HLA de classe 2 (antígeno leucocitário humano, na sigla em inglês) diretamente envolvidas com a identificação de antígenos e desenvolvimento da resposta imunológica.

" A ideia era mimetizar a suscetibilidade genética ao quadro autoimune presente em certos pacientes humanos e avaliar a segurança da vacina. Acompanhamos os animais durante um ano e observamos que o imunizante não induziu nenhum tipo de lesão ou alteração nos órgãos" , contou Guilherme.

Para testar a capacidade de proteção da vacina, os cientistas submeteram os camundongos a um desafio imunológico. " Os animais foram infectados com quantidades enormes da bactéria, suficientes para induzir um abscesso peritoneal. O grupo imunizado apresentou sobrevida de 80% após um mês, os demais morreram no dia seguinte" , contou a pesquisadora.

Testes posteriores com os roedores indicaram que a vacina induziu a produção de grandes quantidades de anticorpos específicos contra a S. pyogenes. Os resultados foram divulgados em um artigo publicado na revista Vaccine.

Também foram realizados experimentos em pequenos porcos de aproximadamente 25 kg peso semelhante ao de uma criança. Os animais foram acompanhados por um ano, apresentaram altos títulos de anticorpos e nenhuma reação deletéria.

" Com esses resultados em mãos, estamos prontos para iniciar estudos de fase 1 em humanos. Apenas aguardamos a liberação do financiamento pré-aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)" , contou Guilherme.

Fonte: UNIFESP
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