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publicado em 24/04/2013 às 15h45:00
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Equipe que reúne cientistas britânicos e brasileiros usa técnicas que transformam tecidos suínos num material compatível com o organismo humano. O objetivo da pesquisa é criar uma opção para os transplantes de pele, onde os doadores são raros e há risco de rejeição do órgão transplantado.

Sonia Oliani, bióloga da Unesp de São José do Rio Preto que coordena a vertente brasileira da pesquisa, usa uma palavra inglesa muito empregada em estudos de engenharia de tecidos para explicar a função da pele suína: ela é um scaffold literalmente, " andaime" . O tecido animal serve como uma estrutura de apoio para que o organismo reconstrua com eficácia a área de pele lesada.

O passo mais importante para que esse andaime seja seguro e não coloque em polvorosa o sistema imunológico do paciente transplantado é eliminar as células do porco " doador" . O chamado processo de descelularização da pele suína, conduzido no Instituto Northwick Park de Pesquisa Médica da University College de Londres, remove todo o material genético associado ao tecido suíno. Resta, no fim do processo, uma matriz sem células que conserva as principais características biomecânicas e estruturais da pele " real" .

Entre os principais componentes da matriz estão o colágeno e o ácido hialurônico. Ambas as moléculas são peças cruciais do sistema de " preenchimento" entre as células da pele e de diversos outros órgãos, conferindo elasticidade e vigor ao tecido. Na pele, as moléculas de colágeno aparecem em conjuntos de fibrilas, as quais, junto com a queratina, conferem ao tecido suas propriedades mecânicas naturais e, quando em menor abundância ou qualidade, levam às rugas. Já o ácido hialurônico age como promotor da migração e proliferação celular, além de ajudar a manter o colágeno em boas condições.

Demonstrar a eficácia desse tipo de tecnologia, bem como sua viabilidade econômica, seria particularmente importante no contexto brasileiro, afirma a bióloga, porque os " bancos de pele" , com tecido proveniente de doadores humanos, são raros, estando presentes apenas na capital paulista, em Porto Alegre e no Recife. " Em Santa Maria essa escassez foi um problema" , diz Sonia, referindo-se ao incêndio numa casa de shows que matou centenas de jovens na cidade gaúcha neste ano e deixou muitas vítimas afetadas por queimaduras graves. Além do emprego em pacientes queimados, a matriz estudada pelos pesquisadores também poderia ser usada para recuperar a pele de pessoas afetadas por tumores, hérnias ou feridas de difícil cicatrização.

Nos experimentos, os cientistas anestesiam o animal, fazem uma incisão e retiram um trecho de pele (incluindo a , mais superficial, e a derme, camada mais profunda) de cerca de 1 cm2 nas costas do roedor. " Depois disso, encaixamos o scaffold, que pode ser cortado como se fosse uma folha, do tamanho que desejarmos." É quase como colocar um pedaço de celofane no local da lesão, com a diferença de que a matriz descelularizada não é transparente.

Depois, a situação do implante é examinada a intervalos regulares, de 3, 10, 21 e 90 dias. Embora os resultados ainda sejam preliminares, a bióloga diz que há indicações de que o material testado por eles tem algumas vantagens em relação a matrizes sintéticas disponíveis no mercado hoje, como uma melhor integração aos tecidos naturais do animal. "É até difícil perceber alguma alteração macroscópica na pele dos ratos. Você vê que a área está um pouco ' levantada' , mas é só" , diz Sonia. Levando em conta o fato de que a composição do material suíno pouco difere da matriz extracelular natural da pele, a esperança é que a matriz preparada no laboratório britânico seja capaz de recrutar células do entorno, que a " colonizariam" , recuperando o local lesado.

Outros estudos de engenharia tecidual têm trabalhado com estratégias mais complexas, nas quais o scaffold é " pré-semeado" com células-tronco capazes de dar origem ao tecido que se deseja reconstruir antes de a estrutura ser colocada no organismo receptor. Mas a bióloga diz que o plano, por enquanto, é estimular a capacidade de regeneração natural dos roedores.

Enquanto aperfeiçoa o uso da matriz de pele suína, a equipe também investiga uma molécula que pode se revelar uma poderosa aliada dos transplantes. Trata-se da proteína anexina A1, que tem propriedades anti-inflamatórias e facilita a proliferação celular, essencial quando as conexões entre o tecido transplantado e o organismo receptor estão sendo construídas.

Sonia trabalha há anos com o britânico Roderick Flower, descobridor da anexina A1 e professor de farmacologia da Universidade Queen Mary, onde a pesquisadora é professora-visitante. " A ideia é administrar a anexina antes do transplante, o que já vai proteger o organismo de parte dos efeitos da operação e facilitar a recuperação estrutural e os processos regenerativos do órgão" , diz Sonia. Há resultados encorajadores dessa estratégia em transplantes renais, por exemplo. " Estamos aproveitando esse trabalho nos nossos estudos com transplantes de pele", diz ela.

Fonte: Isaude.net
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