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publicado em 16/04/2013 às 10h28:00
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Foto: Miriamala
Pesquisadores testaram uma lectina extraída da semente de jaca chamada ArtinM
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Pesquisadores testaram uma lectina extraída da semente de jaca chamada ArtinM

Uma terapia experimental feita com a proteína lectina foi capaz de estimular o sistema imunológico e aumentar a resistência contra doenças como leishmaniose, toxoplasmose e paracoccidioidomicose. Os pesquisadores acreditam que o mesmo método possa ser usado no combate a outras doenças infecciosas e a tumores.

O estudo é conduzido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, pela professora Maria Cristina Roque Antunes Barreira. Ela investiga o papel das lectinas (proteínas capazes de decodificar as informações contidas na camada de açúcares que reveste as células) na imunidade.

Para desvendar os mecanismos de reconhecimento de açúcar na superfície das células de defesa, os pesquisadores testaram uma lectina extraída da semente de jaca chamada ArtinM, em uma linhagem de células do sistema imunológico humano.

" Moléculas de lectinas possuem uma região especializada para se ligar a um tipo específico de açúcar e, com isso, desencadear certas respostas na célula, que podem ser de proliferação, migração, morte celular ou produção de mediadores químicos" , explica.

Os pesquisadores observaram que a ação de ArtinM sobre células do sistema imunológico estava relacionada com o estímulo à produção de interleucina 12, uma citocina capaz de ativar um tipo de célula de defesa chamado linfócito T helper 1 (TH1). Então, testaram o efeito da proteína em dois modelos animais. No primeiro, os camundongos foram infectados com o protozoário Leishmania major, causador da leishmaniose cutânea.

"Nesses animais, a ArtinM induziu a produção de interleucina 12, deixando-os mais resistentes à infecção" , contou Roque-Barreira.

No segundo caso, os camundongos foram infectados com o fungo Paracoccidiodes brasiliensis, causador da paracoccidioidomicose, uma doença endêmica que causa fibrose pulmonar e pode atacar outros órgãos. Nesse modelo, a administração de ArtinM também tornou os animais mais resistentes à infecção.

" Vimos que essa lectina se liga aos açúcares dos receptores do tipo toll-like 2 (TLR2), que existem em grandes quantidades na superfície dos fagócitos. Isso dispara um sinal que estimula a célula a produzir interleucina 12."

Para comprovar os achados, os pesquisadores trabalharam com camundongos que tiveram o gene codificador do receptor TLR2 nocauteado. " Observamos, de fato, que, sem TLR2, a ArtinM deixa de induzir a produção de interleucina 12" , contou.

Interleucina 12 é investigada em outros patógenos

A aplicação terapêutica da lectina extraída da semente de jaca em humanos é limitada, de acordo com Roque-Barreira, pois a proteína, estranha ao organismo, poderia desencadear uma reação imune não desejada. Os cientistas então decidiram investigar se os próprios patógenos causadores das doenças também expressam lectinas capazes de estimular a produção de interleucina 12.

No fungo P. brasiliensis os pesquisadores encontraram a paracoccina, uma lectina capaz de se ligar a um açúcar chamado N-acetil- glicosamina.

Já no Toxoplasma gondii, protozoário causador da toxoplasmose, verificaram que moléculas chamadas proteínas de micronemas são ligantes de açúcar e possuem propriedades muito semelhantes às de ArtinM. " Duas dessas proteínas, a MIC1 e a MIC4, têm a capacidade de reconhecer, respectivamente, o ácido siálico e a galactose - açúcares que podem estar expressos na superfície das células de defesa" , explicou Barreira.

Testes in vitro mostraram que tanto a paracoccina como a MIC1 e a MIC4 também interagem com os receptores TLR2 e induzem a produção de interleucina 12. A etapa seguinte foi testar o efeito in vivo.

Para isso, foram usados dois modelos experimentais: camundongos infectados com P. brasiliensis e camundongos infectados com T. gondii.

Doze dias após a infecção pelo T. gondii, 100% do grupo de animais não tratados havia morrido. Já no grupo que recebeu a MIC1 e a MIC4, 80% dos camundongos estavam vivos após 30 dias da inoculação do parasita.

" Avaliamos também o número de cistos do protozoário que haviam se formado no cérebro dos animais. Entre os tratados, encontramos em média 300 cistos. Nos cérebros dos camundongos não tratados, foram mais de mil cistos. Isso mostra que a terapia tornou os macrófagos mais eficientes para eliminar os parasitas" , disse Barreira.

A fim de verificar o efeito do tratamento com paracoccina entre os infectados com P. brasiliensis, os cientistas quantificaram o número de colônias do fungo que se formaram no pulmão dos camundongos. Foram encontradas, em média, 300 mil colônias entre os animais não tratados. Naqueles que receberam a lectina, o número caiu para 50 mil.

" Por meio de microscopia, também observamos que o pulmão dos animais tratados com paracoccina apresentava seis vezes menos lesões inflamatórias do que o do grupo controle" , disse Roque-Barreira.

ArtinM é capaz de induzir a morte de células tumorais

De acordo com a pesquisadora, as lectinas foram capazes de proteger os animais tanto quando administradas de forma profilática quanto terapêutica.

" Essa abordagem pode ser usada também em humanos, pois o paciente infectado já está em contato com os antígenos contidos nos parasitas. Administrar uma proteína do próprio patógeno não vai criar hipersensibilidade adicional no organismo e vai proteger contra a progressão rápida da doença" , disse.

O grupo desenvolveu formas recombinantes dessas proteínas, ou seja, já é capaz de produzi-las em grandes quantidades usando como ferramentas organismos geneticamente transformados para expressarem os genes da paracoccina, da MIC1 e MIC4.

" A ativação da resposta imunológica do tipo TH1 pode ser benéfica não só contra doenças infecciosas como também contra câncer. No fígado, por exemplo, temos evidências de que a administração de lectinas previne a carcinogênese" , disse.

Em linhagens de células leucêmicas, os cientistas mostraram que a ArtinM foi capaz de induzir a morte das células tumorais. Os resultados do estudo foram publicados nas revistas PLoS One e Medical Mycology.

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