Ciência e Tecnologia
publicado em 14/01/2013 às 16h07:00
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Cerca de 5 mil indivíduos pertencentes a 94 grupos populacionais modernos distintos, foram analisados por um grupo de geneticistas e antropólogos físicos ibero-americanos, que colheu evidências suficientes para contestar uma das teorias mais controversa que ganhou as páginas de importantes revistas científicas nos últimos cinco anos: a de que, ao medir um traço físico permanente do crânio de pessoas do sexo masculino, é possível obter um indicador confiável de seu grau de honestidade e de agressividade.

Segundo essa polêmica tese, que flerta com as ideias lombrosianas defendidas no século XIX e há tempos totalmente desacreditadas, a relação entre a largura e a altura do rosto de um homem está associada ao tipo de comportamento exibido pelo indivíduo (o mesmo raciocínio não valeria para as mulheres). Homens com rostos proporcionalmente mais largos seriam menos éticos e mais violentos.

Em termos evolutivos, sempre segundo os defensores dessa teoria, as fêmeas de Homo sapiens teriam preferido se reproduzir com os machos de cara menos estreita, que, por se sentirem líderes poderosos e temidos, teriam maior predisposição a recorrer a artimanhas e à força para fazer valer seus interesses. Logo, por essa linha de raciocínio, com o passar do tempo, os crânios mais largos teriam se tornado uma marca registrada dos homens mais desejados, potentes e com maior sucesso reprodutivo, que seriam também os mais desonestos e truculentos. Essa teoria é contestada por cientistas do Brasil, da Argentina, do México e da Espanha que está previsto para ser publicado este mês na revista científica PLoS One.

" Não encontramos nenhum dado significativo de que populações ou indivíduos com maior grau de belicosidade, comportamento agressivo ou mediado pela sensação de poder tenham um rosto mais largo" , diz a geneticista Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das coordenadoras do trabalho. " Também não achamos nenhuma ligação entre esse traço físico e uma suposta vantagem reprodutiva no processo evolutivo." Se os machos de cara mais larga tivessem sido, ao longo do processo evolutivo, os prediletos das fêmeas, era de esperar que esses indivíduos tivessem produzido mais descendentes do que seus rivais mais fracos (ou com imagem de mais fracos), de rosto mais alongado. Na amostra analisada, no entanto, o tamanho da prole de homens de traços faciais mais largos não diferiu significativamente dos demais.

Fundamentos frágeis

Independentemente de a largura da face masculina ter sido moldada pelo processo evolutivo ou não, concluir que esse parâmetro anatômico é, por si só, uma espécie de régua biológica do caráter e da agressividade dos homens carece de fundamentos sólidos, de acordo com a equipe internacional de pesquisadores. " Correlacionar um único atributo físico a um comportamento humano complexo, como a questão da ética e da agressividade, não tem validade científica e é uma ideia perigosa" , afirma o antropólogo físico argentino Rolando González-José, do Centro Nacional Patagônico, de Puerto Madryn, outro autor do trabalho na PLoS One. " Além de não se sustentar do ponto de vista científico, como mostramos em nosso trabalho, esse tipo de raciocínio, que não leva em conta o contexto social e cultural das pessoas, abre uma porta para políticas discricionárias e eugênicas."

Os cientistas usaram bases de dados próprias e disponibilizadas por outros trabalhos científicos para obter informações sobre a largura da cabeça de uma amostra tão grande e diversificada de crânios humanos. Entre as populações analisadas, havia grupos de contextos sociais e culturais muito variados, de sociedades com fama de serem mais ou menos violentas, como moradores de países desenvolvidos e em desenvolvimento e habitantes de tribos indígenas. Dados antropométricos de prisioneiros que estiveram retidos no início do século passado na Penitenciária Federal da Cidade do México, um estabelecimento onde, por definição, a concentração de homens desonestos e belicosos deve ter sido alta, também foram usados no estudo.

" Não estamos dizendo que a genética ou a biologia não influenciam o comportamento das pessoas" , explica Claiton Bau, especialista em genética psiquiátrica da UFRGS, que também assina o trabalho ao lado de González-José e Maria Cátira. " Claro que elas influenciam, mas não têm um efeito determinista sobre comportamentos complexos, como a ética individual. Seu efeito é probabilístico. O ambiente também influencia os indivíduos ao longo de toda a vida. No caso do cérebro, o importante não é o formato, é a função (cognitiva) desempenhada em uma região."

Com informações da Fapesp

Fonte: Isaude.net
   Palavras-chave:   Crânio    Subvertido    Agressividade    Comportamento    Geneticistas    Antropólogos    Traço físico    Face   
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