Geral
publicado em 09/07/2012 às 16h13:00
   Dê o seu voto:

 
tamanho da letra
A-
A+

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) realizaram duas descobertas importantes em um mesmo estudo. Primeiro, eles identificaram a provável causa dos problemas cardíacos que afetam as pessoas tratadas com doxorrubicina, antibiótico naturalmente produzido por bactérias e amplamente usado para combater alguns dos tipos mais comuns de câncer. Em experimentos com ratos, eles verificaram que esse composto destrói a distrofina, proteína que mantém a forma e permite a contração das células cardíacas. No mesmo trabalho, a pesquisadora Érica Carolina Campos, da equipe do patologista Marcos Rossi, encontrou uma forma promissora de reduzir os danos da doxorrubicina no coração.

A doxorrubicina é um composto derivado das antraciclinas, isoladas na década de 1960 a partir da bactéria Streptomyces peucetius. Desde então tem sido usada como quimioterápico por causa de seu amplo espectro de atividade. " As antraciclinas causam danos irreversíveis às células tumorais por se intercalarem no DNA, inibirem a síntese de proteínas e produzirem espécies reativas de oxigênio, causando a morte celular" , explica Rossi. " Por isso, elas sempre foram consideradas um dos medicamentos mais eficazes no tratamento de tumores humanos."

Com o tempo, no entanto, verificou-se que a doxorrubicina produz efeitos colaterais que se tornam cada vez mais intensos. O principal deles é a dilatação do coração, que causa insuficiência cardíaca e pode levar à morte. A insuficiência pode ser aguda, observada logo após a administração da primeira dose ao paciente e facilmente tratada, ou crônica, que se manifesta ao longo de meses de tratamento. Atualmente a estratégia para tentar reduzir os danos cardíacos é limitar a dosagem da medicação a algo entre 500 e 550 miligramas por metro quadrado (mg/m2) de superfície corporal - uma pessoa de 1,80 m e 80 quilos tem cerca de 2 m2 de superfície corporal e pode receber uma dose cumulativa máxima de 1.000 a 1.100 mg. Mesmo assim, não se consegue evitar completamente os efeitos tóxicos. " Estima-se que 5% a 35% dos pacientes que recebem dose superior a 400 mg/m2 de antraciclinas apresentam queda nos índices de função cardíaca ou até insuficiência cardíaca" , diz Rossi.

Verificou-se que a doxorrubicina produz efeitos colaterais que se tornam cada vez mais intensos. O principal deles é a dilatação do coração, que causa insuficiência cardíaca e pode levar à morte.

Algumas hipóteses tentavam explicar a origem dos danos que a doxorrubicina causa às células do coração (cardiomiócitos). A mais estudada delas é o estresse oxidativo. De acordo com os defensores dessa ideia, as antraciclinas geram radicais livres, moléculas altamente reativas que causariam lesões na membrana e em outros componentes das células. " Mas esse mecanismo tem sido cada vez mais questionado" , comenta Rossi. " Isso aumentou nosso interesse em estudar a causa da lesão cardíaca e permitiu propor que ela seja consequência de danos a proteínas estruturais dos cardiomiócitos, principalmente a distrofina."

Para testar essa hipótese, Érica tratou durante duas semanas três grupos de ratos com doses diferentes de doxorrubicina e analisou o que acontecia com o coração dos roedores. " Avaliamos a expressão das proteínas nas células do coração e também a função cardíaca 7 dias e 14 dias após a última dose administrada" , conta Érica.

Ela verificou uma perda significativa da distrofina nas células cardíacas. Quanto maior a dose do medicamento, menos distrofina havia no coração e maior a taxa de mortalidade entre os animais, relataram os pequisadores em artigo no European Journal of Pharmacology. Exames de imagem, como a ecocardiografia, revelaram também que a perda de distrofina prejudicou a capacidade de bombeamento de sangue. " A perda de distrofina foi considerada a causa estrutural responsável pela perda da função cardíaca" , afirma Érica.

Mas confirmar o efeito nocivo não bastava. Os pesquisadores também queriam saber como a distrofina é destruída pela medicação. " Descobrimos que os danos na membrana dos cardiomiócitos permitem a entrada de mais íons de cálcio" , explica Rossi. " Isso, por sua vez, ativa as proteases (enzimas) que lesam as células."

De posse desse conhecimento, os pesquisadores passaram a buscar formas de reduzir os danos cardíacos causados pelas antraciclinas. Um dos compostos que testaram foi o relaxante muscular dantrolene, que reduz a contração das células ao bloquear a entrada de cálcio. Administrado com a doxorrubicina, o relaxante muscular reduziu a perda de distrofina e os focos de lesão. " Os ratos tratados com dantrolene e doxorrubicina mantiveram função cardíaca semelhante à dos animais controles [que haviam recebido placebo em vez do quimioterápico]" , conta Rossi. " Nossos achados entusiasmam porque abrem a possibilidade de que, no futuro, talvez possam reorientar a prática clínica."

Veja mais detalhes sobre o estudo em inglês.

Fonte: FAPESP
   Palavras-chave:   Câncer    Doxorrubicina    Cardiologia    Universidade de São Paulo    Coração    São Paulo   
  • Indique esta NotíciaIndique esta Notícia
  • Indique esta NotíciaCorrigir
  • CompartilharCompartilhar
  • AlertaAlerta
Link reduzido: 
  • Você está indicando a notícia:
  • Para que seu amigo(a) receba esta indicação preencha os dados abaixo:

  • Você está informando uma correção para a matéria:


Receba notícias do iSaúde no seu e-mail de acordo com os assuntos de seu interesse.
Seu nome:
Seu email:
Desejo receber um alerta com estes assuntos:
câncer    doxorrubicina    cardiologia    Universidade de São Paulo    coração    São Paulo   
Comentários:
Comentar
Deixe seu comentário
Fechar
(Campos obrigatórios estão marcados com um *)

(O seu email nunca será publicado ou partilhado.)

Digite a letras e números abaixo e clique em "enviar"

  • Twitter iSaúde
publicidade
Jornal Informe Saúde

Indique o portal
Fechar [X]
  • Você está indicando a notícia: http://www.isaude.net
  • Para que seu amigo(a) receba esta indicação preencha os dados abaixo:

RSS notícias do portal  iSaúde.net
Receba o newsletter do portal  iSaúde.net
Indique o portal iSaúde.net
Notícias do  iSaúde.net em seu blog ou site.
Receba notícias com assunto de seu interesse.
© 2000-2011 www.isaude.net Todos os direitos reservados.