Consumo excessivo de álcool possui forte influência genética sobre o risco de desenvolver dependência alcoólica (AD - sigla em inglês). Estudo realizado por pesquisadores dos Estados Unidos examinou a ligação entre o alcoolismo e variações genéticas chamadas variação do número de cópias (CNVs - sigla em inglês), encontrando uma associação significativa entre a AD e as CNVs sobre o cromossomo 5q13.2.
Resultados foram publicados online na Early View.
De acordo com o pesquisador envolvido no estudo John P. Rice, da Universidade de Washington, a hereditariedade estimada do alcoolismo - proporção da variabilidade do risco que é devido a fatores genéticos - é cerca de 50%.
Rice explica que CNVs são uma forma de variação estrutural em que regiões relativamente grandes do genoma são suprimidas - o que significa menor número de cópias -, ou duplicadas - maior número de cópias. "Dois indivíduos sem parentesco podem diferir em cerca de 0,5% no número de cópias", diz o pesquisador. "CNVs podem ser herdadas ou serem resultado de uma mutação genética que nenhum dos progenitores possuía ou transmitiram". Segundo o pesquisador, alguns estudos sustentam a hipótese de que CNVs influenciam no desenvolvimento de doenças como autismo e esquizofrenia.
O estudo
Como parte do projeto Study of Addiction: Genetics and Environment (SAGE), Rice e colegas entrevistaram 3.829 participantes adultos (1.761 homens e 2.068 mulheres) utilizando uma avaliação semi-estruturada para a genética do alcoolismo; posteriormente, 2.610 europeus-americanos não-hispânicos (1.144 do sexo masculino e 1.466 do sexo feminino) foram genotipados usando a matriz Illumina Human 1M e análises CNV foram realizadas.
"Encontramos dois CNVs - nos cromossomos 5q13.2 e 6q14.1 - que foram associados com a dependência alcoólica (AD)", diz Rice.
"Para ambos os CNVs, os casos de AD tendiam a ter mais duplicações do que seus pares controles sem dependência. Estes dois CNVs são estatisticamente significativos, mas o efeito sobre o risco é modesto. A região identificada no cromossomo 5 contém vários genes que têm sido implicados distúrbios neurológicos raros e desempenham um papel no sistema nervoso. Será um desafio entender quais genes estão causando esta associação e como eles trabalham para aumentar o risco para dependência alcoólica."
Os autores observam que os resultados encontrados no estudo sobre o cromossomo 6 são mais significativos, no entanto, mais difíceis de serem "traduzidos". A equipe explica que o fato de a região estar envolvida em um deserto de genes dificulta o prosseguimento dos estudos. "Será fascinante ver o resultado dos esforços de replicar essas descobertas em outras populações e validar através de outros meios, por exemplo, por estudos dos genes individuais nas regiões envolvidas nas CNVs", diz David Goldman, chefe do laboratório de neurogenética do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism.
Rice concorda: "nossos resultados precisam ser replicados em amostras independentes. Se elas se mantiverem, então, os pesquisadores que estudam a biologia básica de como as mudanças no genoma levam a um risco aumentado ou diminuído de doença pode acrescentar à nossa compreensão".
"É importante notar que as associações são modestas, de modo que essas conclusões não podem ser usadas para prever quem vai se tornar alcoólatra. Os resultados abrem uma nova linha de investigação, mas pode levar muitos anos antes que tenhamos uma verdadeira compreensão", conclui o pesquisador.