Cientistas da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, estão utilizando imagens do cérebro e videogames para ensinar meninas em risco de depressão a treinar seus cérebros para evitar o aparecimento do distúrbio psicológico. Os resultados mostram uma estratégia nova e promissora para prevenir a depressão, que os pesquisadores esperam poder aplicar a qualquer pessoa em risco da doença.
O estudo, liderado pelo professor de psicologia Ian Gotlib, se concentrou em meninas de 10 a 14 anos de idade cujas mães apresentam, ou já apresentaram, depressão. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que essas meninas têm um risco significativamente maior de desenvolver a condição psicológica do que crianças sem histórico familiar.
Para o trabalho, os pesquisadores utilizaram um aparelho de ressonância magnética funcional (fMRI) para visualizar, em tempo real, como os cérebros das meninas reagem quando olham para imagens perturbadoras, como fotos de acidentes. O cérebro das pessoas que estão deprimidas ou em risco de se tornar deprimidas reage de forma exagerada a experiências negativas. Seus corpos respondem com aumento da frequência cardíaca, pressão arterial, maior produção de cortisol e outros indicadores físicos do estresse.
Durante o fMRI, os pesquisadores mediram os níveis de sangue que fluíram para cada parte do cérebro e mantiveram atenção especial à região da amígdala. "Toda pessoa ativa a amígdala até certo ponto quando vêem uma imagem negativa. Nós descobrimos que os adultos deprimidos e crianças em risco para a depressão ativam muito mais essa região do que as outras pessoas. E isso pode prejudicar o seu funcionamento no dia-a-dia", explica Gotlib.
Quando submetidas à ressonância magnética funcional, as meninas visualizaram o nível de sua atividade cerebral em um gráfico. Os pesquisadores, então, pediram a elas que tentassem diminuir a resposta pensando sobre experiências mais positivas, tais como ir à praia ou brincar com animais de estimação. "Elas olham para a linha no gráfico e nós pedimos a elas para reduzirem aquele limiar. Muitos de nós pensamos que é impossível mudar o nível de ativação em uma parte específica do nosso cérebro sem afetar o nível de ativação em outra parte do nosso cérebro. Mas, na maioria das vezes, as meninas conseguiram reduzir a linha no gráfico, para surpresa delas e dos pesquisadores" , afirma Gotlib.
Segundo o pesquisador Paul Hamilton, a maioria das pessoas pensa no cérebro como uma estrutura muito difícil de controlar. "Mas, na verdade, o cérebro é um órgão muito dinâmico. Estamos felizes por termos conseguido fornecer às meninas uma estratégia potencialmente adaptativa que possibilita a elas reagirem quando são confrontados com coisas negativas" , ressalta.
Videogame
O segundo experimento testou o uso de um videogame para melhorar os sintomas depressivos das meninas. Para o ensaio, os pesquisadores ligaram as meninas a um computador por meio de fios colocados na cabeça e no pulso. Eles, então, apresentaram duas faces em uma tela. Os rostos estão em pares de neutro e feliz ou neutro e triste. Um ponto aparece na tela, e conforme a menina clica sobre ele, a imagem triste some e aparece um rosto com expressão de felicidade.
Segundo os pesquisadores, a tarefa ajuda as meninas a aprenderem a impedir que seus cérebros tenham uma reação exagerada a estímulos negativos. Estudos anteriores demonstraram que este tipo de atividade é eficaz em ajudar as pessoas com transtorno de ansiedade generalizada. Ambos os experimentos parecem ajudar as meninas na redução das respostas dos cérebros a situações negativas.
De acordo com Gotlib, depois de passarem pelos experimentos, as meninas apresentam melhores resultados em testes destinados a induzir o estresse. "Os batimentos cardíacos são mais lentos, a resposta da pele é menor. Elas aprenderam com as atividades a serem menos reativas diante de situações negativas. Essa é uma etapa crítica para prevenir o aparecimento de um episódio depressivo", observa Gotlib.
Os pesquisadores contaram com 20 participantes até agora no estudo atual, mas eles esperam que esse número chegue a 100, ao longo da pesquisa, que pode durar cinco ou 10 anos mais.
Apesar da amostra pequena, os resultados preliminares sugerem que as meninas podem mudar a sua reatividade a informações negativas e diminuir seus níveis de estresse, o que deve ajudar a afastar a depressão. "Nada disso ajuda a curar a depressão. Mas minha esperança é que podemos prevenir o aparecimento de um primeiro episódio", conclui Gotlib.