Pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, conseguiram provar que o aumento ou a diminuição da pressão intracraniana causa variações volumétricas lineares na caixa craniana. Em função dessa pequena elasticidade da estrutura óssea, seria possível medir e monitorar a pressão interna do cérebro de pacientes com hidrocefalia, traumatismo craniano e tumores, sem a necessidade de perfurar o crânio, como fazem os equipamentos existentes atualmente.
Para isso, os cientistas fundaram uma empresa e desenvolveram por meio de um projeto, realizado com apoio do Programa Fapesp, um método simples e minimamente invasivo.
Idealizado pelo professor Sergio Mascarenhas, fundador e ex-coordenador do polo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o equipamento ganhou agora mais duas novas versões. " Começamos o projeto com um método minimamente invasivo e, por meio das pesquisas que realizamos ao longo desses cinco anos, conseguimos desenvolver nos últimos meses mais dois equipamentos não invasivos" , disse Gustavo Henrique Frigieri Vilela, pesquisador da empresa Sapra Assessoria, apoiada pelo projeto.
Método
Segundo Vilela, para realizar o monitoramento da pressão intracraniana pelo primeiro equipamento que desenvolveram, era necessário raspar o cabelo e realizar uma pequena incisão na pele da cabeça do paciente, de modo a colar um sensor sobre o crânio que registra sua deformação óssea - que é proporcional à pressão interna do cérebro.
Por meio dos dois novos equipamentos não é preciso sequer cortar o cabelo do paciente. " Basta tocar o sensor sobre o couro cabeludo para realizar o monitoramento" , afirmou.
A primeira nova versão do equipamento, que pode ser utilizada em clínicas e ambulatórios, é um sistema que se prende à cabeça do paciente para medir a deformação do crânio. Por sua vez, o segundo novo equipamento, batizado de Brain Strap, é uma faixa de 10 centímetros para ser colocada em volta da cabeça do paciente, que não precisa ficar imóvel e pode estar acordado ou realizando atividade física durante o monitoramento.
Segundo Vilela, os dois novos equipamentos têm a mesma sensibilidade do método minimamente invasivo e serão patenteados nos Estados Unidos e alguns países da Europa por meio do apoio da Fapesp. Os três equipamentos estão em fase de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e serão certificados posteriormente na agência regulatória de alimentos e fármacos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) e na Comunidade Europeia para poderem ser comercializados. " Nós aprimoramos os protótipos dos equipamentos, depois patenteamos e agora estamos na fase de registro para podermos alcançar o mercado" , disse Vilela.
Artigos e nova empresa
O equipamento minimamente invasivo foi testado em pacientes com traumatismo cerebral internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Posteriormente, passou a ser testado para diversas outras aplicações, como no diagnóstico e acompanhamento de pacientes com acidente vascular cerebral (AVC), que aumenta o volume interno do cérebro e a pressão intracraniana , além de no diagnóstico de morte encefálica, quando desaparece a pressão intracraniana, e epilepsia.
Outras possíveis aplicações do equipamento estão em farmacologia, para medir os efeitos de drogas que atuam sobre desequilíbrios químicos do cérebro que alteram a pressão intracraniana, como a enxaqueca, e em veterinária, para medir a pressão intracraniana de animais de grande porte, como boi e porco, de modo avaliar a presença de encefalite.
Comparando o equipamento com os métodos invasivos existentes hoje para monitorar a pressão intracraniana nos estudos clínicos iniciais, de acordo com Vilela, os resultados atingidos pelo dispositivo que criaram foram melhores. Além disso, o método minimamente invasivo também foi capaz de captar os sinais de respiração e batimento cardíaco dos pacientes. " O equipamento passou de ser um monitor clínico para um multiparamédico, capaz de registrar, além da pressão intracraniana, as frequências cardíaca e respiratória dos pacientes" , afirmou.
Em fevereiro, os pesquisadores brasileiros publicarão um capítulo na Acta Neurochirurgica Supplementum em que demonstram, por meio do método que desenvolveram, que a doutrina de Monro-Kellie não é mais válida. Intitulado Intracranial Pressure and Brain Monitoring XIV, o livro reunirá cerca de 80 artigos de pesquisas apresentadas no 14º Simpósio Internacional de Pressão Intracraniana e Monitoramento Cerebral, que ocorreu em setembro de 2010 em Tuebingen, na Alemanha.
Em março, eles também publicarão outro artigo, no International Journal of Mechatronics and Manufacturing Systems, em que descrevem a utilização do novo equipamento e do método minimamente invasivo para o monitoramento da pressão intracraniana em neurocirurgia e neurofisiologia. " Nosso projeto tomou uma proporção um pouco maior do que imaginávamos no início e possibilitou o surgimento de uma nova empresa, chamada Brain Care, que estamos registrando para comercializar os equipamentos para aplicação neurológica" , disse Vilela.
O artigo The New ICP Minimally Invasive Method Shows that the Monro-Kellie Doctrine Is Not Valid, de Vilela e outros, pode ser lido na Acta Neurochirurgica Supplementum, que pode ser adquirida aqui.