"Durante décadas, pesquisadores têm debatido se a doença de Alzheimer começa de forma independente em regiões do cérebro vulneráveis em momentos diferentes, ou se ela começa em uma região e depois se espalha para áreas neuroanatomicamente conectadas. Em novo estudo da Columbia University Medical Center (CUMC), nos Estados Unidos, cientistas defendem a última hipótese, demonstrando que a proteína tau anormal, uma característica essencial dos emaranhados neurofibrilares vistos nos cérebros de pessoas com Alzheimer, propaga-se ao longo de circuitos cerebrais ligados, 'pulando' de neurônio para neurônio.
As descobertas, publicadas na revista online PLoS ONE, abrem novas oportunidades para a obtenção de uma maior compreensão do mal de Alzheimer e de outras doenças neurológicas e para o desenvolvimento de terapias para impedir a sua progressão, de acordo com a professora de patologia Karen E. Duff.
A doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência, é caracterizada pelo acúmulo de placas (composto de proteína beta-amiloide) e emaranhados fibrosos (compostos de tau anormal) nas células cerebrais chamadas neurônios. Estudos post-mortem de cérebros humanos e estudos de neuroimagem sugerem que a doença, especialmente a patologia do emaranhado neurofibrilar, começa no córtex entorrinal, que desempenha um papel fundamental na memória. Então, enquanto o Alzheimer progride, a doença aparece em regiões cerebrais superiores anatomicamente ligadas.
"Pesquisas anteriores, incluindo exames de ressonância magnética funcional em humanos, também apoiaram este padrão de propagação. Mas estes resultados diferentes não mostram definitivamente que a doença de Alzheimer se espalha diretamente de uma região do cérebro para outra", disse o professor de neurologia Scott A. Small.
Para aprofundar esta questão, os pesquisadores da Columbia University Medical Center (CUMC) desenvolveram um novo rato transgênico em que o gene humano para tau anormal é expresso predominantemente no córtex entorrinal. Os cérebros dos camundongos foram analisados em momentos diferentes ao longo de 22 meses para mapear o alastramento da proteína tau anormal.
Os pesquisadores descobriram que, conforme os camundongos envelheciam, a tau anormal humana espalhou-se ao longo de um percurso anatomicamente ligado, a partir do córtex entorrinal para o hipocampo e o neocórtex. "Este padrão acompanha muito de perto o que observamos nas fases iniciais da doença humana de Alzheimer" disse Duff.
Os pesquisadores também descobriram evidências que sugerem que a proteína tau anormal foi passando de neurônio para neurônio por meio das sinapses, junções que essas células usam para se comunicar umas com as outras.
As descobertas do estudo têm implicações importantes para a terapia.
"Se, como nossos dados sugerem, a patologia do tau começa no córtex entorrinal e emana de lá, a abordagem mais eficaz poderá ser tratar o Alzheimer como tratamos o câncer - por meio da detecção precoce e do tratamento, antes que ele tenha uma chance de se espalhar. A melhor maneira de curar a doença de Alzheimer pode ser identificando-o e tratando-o quando ele está apenas começando, para deter a progressão. É durante esta fase inicial que a doença será mais sensível ao tratamento. Essa é a promessa clínica animadora a caminho", disse Small.
Os tratamentos poderiam possivelmente atacar a tau durante a mesma fase extracelular, enquanto se move de célula para célula, acrescentou Duff. "Se conseguirmos encontrar o mecanismo pelo qual tau se propaga de uma célula para outra, poderíamos possivelmente impedi-la de saltar através das sinapses - talvez usando algum tipo de imunoterapia. Isso impediria a propagação da doença para outras regiões do cérebro, que é associada com a demência mais grave", disse ela.