Estudo das células que respondem a crises no sistema sanguíneo rendeu algumas surpresas, redesenhando o 'mapa' de como as células do sangue são feitas no corpo.
A descoberta, feita por pesquisadores do Walter and Eliza Hall Institute, na Austrália, pode ter amplas implicações para a compreensão de doenças do sangue, como as desordens mieloproliferativas (que causam excesso de produção de células do sangue), e pode ser utilizada para desenvolver novas formas de controlar como as células do sangue e de coagulação são produzidas.
A equipe de pesquisa, liderada por Ashley Ng e Maria Kauppi da divisão de Câncer e Hematologia do instituto, pesquisou subconjuntos de células 'progenitoras' do sangue e os sinais que fazem com que elas se expandam e se desenvolvam em células sanguíneas maduras. Seus resultados são publicados hoje na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America.
Ng descreve as células progenitoras do sangue como os "levantadores de peso pesado" do sistema sanguíneo. "Elas são os alvos para os hormônios das células do sangue, chamadas citocinas, que o professor Don Metcalf e seus colegas demonstraram ser fundamentais para regular a produção de células sanguíneas. Em tempos de estresse, como uma hemorragia, durante a infecção ou após a quimioterapia, são realmente as células progenitoras que respondem pela substituição das células do sangue perdidas ou danificadas", diz Ng.
Kauppi disse que a equipe de pesquisa estava particularmente interessada nas células progenitoras mieloides, que produzem os megacariócitos, um tipo de célula da medula óssea que dá origem às plaquetas de coagulação do sangue. "Nós usamos um conjunto de marcadores de superfície celular específicos para estas células progenitoras que nos permitiu isolar e caracterizar as células", diz.
Os pesquisadores ficaram surpresos em descobrir que as células progenitoras que se acreditava serem capazes de produzir apenas megacariócitos também eram capazes de se desenvolver em células vermelhas do sangue.
"Nós conseguimos demonstrar claramente que estas células progenitoras de megacariócitos do rato têm potencial para se desenvolverem em quaisquer megacariócitos ou células vermelhas do sangue em resposta a citocinas como a trombopoietina e a eritropoietina, o que foi bastante inesperado. Além disso, descobrimos que outras populações de progenitores que se acreditava que realmente só faziam neutrófilos e monócitos [outras células do sistema imunológico], eram capazes de fazer glóbulos vermelhos e plaquetas muito bem. Com efeito, teremos que redesenhar o mapa de como os glóbulos vermelhos e as plaquetas são produzidas na medula óssea", disse Ng.
Kauppi disse que os pesquisadores descobriram que podiam regular se a célula progenitora se tornava um megacariócito ou um glóbulo vermelho ao usar diferentes combinações de citocinas. "Agora que identificamos devidamente as células principais e determinamos como elas respondem aos sinais de citocinas envolvidas na produção de células vermelhas do sangue e de plaquetas, o palco está montado para a compreensão de como estes progenitores são afetados na saúde e na doença. Nós também podemos entender melhor, por exemplo, como as mudanças genéticas podem levar ao desenvolvimento de determinadas doenças do sangue", disse ela.
Ng disse que as descobertas também ajudariam os pesquisadores a descobrir novas maneiras por meio das quais as células progenitoras poderiam ser controladas.
"Esta pesquisa é o primeiro passo para o desenvolvimento futuro de tratamentos para os pacientes com doenças do sangue. Isso pode ocorrer tanto por se limitar a produção de células sanguíneas, quando muitas delas estão sendo feitas, quanto pelas desordens mieloproliferativas, ou estimulando a produção de sangue quando o sistema sanguíneo é comprometido, como durante o tratamento do câncer ou de uma infecção", Ng disse.