Cientistas da Stanford University School of Medicine, nos Estados Unidos, conseguiram converter células da pele de ratos em estruturas que antecedem os neurônios, sem passar pela fase de células-tronco durante o processo.
O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, é uma extensão de uma pesquisa realizada pelo mesmo grupo em 2011 mostrando que as células da pele podem ser convertidas diretamente em neurônios funcionais.
Os dados do trabalho atual sugerem que uma célula adulta não precisa "regredir" ao estágio de célula-tronco, capaz de se transformar em quase todos os tecidos
humanos, para poder ser convertida em um tipo diferente de célula.
Juntos, os resultados dos dois estudos levantam a possibilidade de que a nova técnica pode ser uma alternativa às pesquisas com células-tronco extraídas de embriões humanos ou que são criadas a partir de células-adultas derivadas de locais como o coração e a pele.
Segundo os investigadores, o novo estudo representa um avanço substancial em relação ao trabalho anterior na medida em que transforma as células da pele em células que antecedem os neurônios, e não em neurônios.
As células precursoras neurais podem se diferenciar em neurônios, mas também podem se tornar os outros dois principais tipos de células no sistema nervoso: astrócitos e oligodendrócitos. Além de sua maior versatilidade, as células que antecedem os neurônios oferecem outra vantagem sobre os neurônios, porque elas podem ser cultivadas em grande número em laboratório, um recurso crítico para a sua utilidade em longo prazo na triagem de drogas ou em transplantes.
No trabalho, a mudança de células da pele para células que antecedem os neurônios ocorreu com alta eficiência por um período de cerca de três semanas após a adição de apenas três fatores de transcrição. A descoberta implica que pode um dia ser possível gerar uma variedade de células do sistema neural para transplante que são perfeitamente compatíveis com um paciente humano.
"Estamos entusiasmados com as perspectivas para uso medicinal potencial dessas células. Mostramos que as células podem integrar em um cérebro de camundongos e produzir uma proteína importante para a condução do sinal elétrico pelos neurônios. Isto é importante porque o modelo de camundongo que usamos imita uma doença cerebral genética humana. No entanto, mais trabalho precisa ser feito para gerar células similares derivadas de células da pele humana e avaliar a sua segurança e eficácia", revela o líder da pesquisa Marius Wernig.
Segundo os pesquisadores, a conversão direta tem uma série de vantagens. "Ela ocorre com eficiência relativamente alta e gera uma população bastante homogênea de células. Em contraste, as células derivadas de células-tronco pluripotente induzidas devem ser cuidadosamente selecionadas para eliminar células que podem se diferenciar em linhagens diferentes. Células pluripotentes podem causar câncer quando transplantadas em animais ou seres humanos", afirma o primeiro autor do trabalho, Ernesto Lujan.
A equipe acredita que a nova técnica de diferenciação direta pode ser muito útil para estudar doenças humanas em laboratório ou mesmo após o transplante em um cérebro de roedores em desenvolvimento.