O trabalho do etnofarmacólogo está em destaque em uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O desafio da bióloga Eliana Rodrigues, especialista em etnofarmacologia, é entender as doenças que não se encaixam naquelas tratadas pela medicina convencional, denominadas "síndromes culturais" no sistema oficial de saúde, através de uma pesquisa profunda sobre a cultura local e do levantamento do conhecimento medicinal de plantas terapêuticas no Brasil.
"O índio trata a doença e usa uma planta para cada enfermidade" , exemplifica Eliana, que, por mais de 15 anos, investiga o conhecimento medicinal de diferentes culturas brasileiras. Segundo ela, " o negro, ao contrário, usa misturas e pode tratar de formas diferentes as dores de cabeça de uma pessoa e de outra. O que conta são as particularidades de cada um". Outra distinção entre culturas é que cada xamã indígena tem o seu conhecimento particular, a sua coleção de plantas na farmácia da floresta. Já os caboclos, segundo a pesquisadora, cultivam um conhecimento difuso que recolhem de diferentes culturas e diferentes origens geográficas.
Cicatrizantes das plantas
De acordo com os pesquisadores, também são muitas as substâncias usadas para as chamadas síndromes culturais que o médico Eduardo Pagani, ao participar do estudo em trabalho de campo na Amazônia, verificou não terem tradução direta na medicina convencional. É o caso do quebranto, do derrame, do espante e da mãe do corpo, entre outras doenças. Alguns dos preparados medicamentosos para esse tipo de enfermidade não vêm das partes tradicionais das plantas, mas de substâncias que elas vertem, os exsudados. Exemplos são o breu-branco e o breu-preto, além do lacre, que libera um líquido laranja.
Os exsudados não se restringem às plantas. A baba do sapo-canuaru, uma perereca malhada de marrom e bege, é usada contra dor de cabeça. O produto forma uma pedra escura, que os ribeirinhos maceram e envolvem num pedaço de pano, que em seguida queimam e inalam. " O uso dos exsudados é geralmente inalatório" , observa Eliana. Mas ela não está convencida de que se trate mesmo da saliva solidificada do anfíbio. Neste mês, a etnofarmacóloga está nas comunidades para aprender a encontrar a substância e verificar a sugestão feita no século XIX pelo naturalista João Barbosa Rodrigues: o sapo-canuaru recolhe breu-branco de troncos podres de árvores do gênero Protium e usa essa resina para revestir seu ninho. Assim, a tal baba de sapo seria o breu-branco enriquecido com secreções da pele do animal.
O resultado deste trabalho é um mapeamento sobre as ervas medicinais e a cultura popular aplicados à medicina convencional.