Cientistas da William L. Brown Center of the Missouri Botanical Garden, nos Estados Unidos, lideraram um estudo que utilizou o camarão de água salgada para determinar a toxicidade de 341 espécies de plantas medicinais tradicionais no Peru.
Os resultados indicaram que mais de 24% dos extratos de água feitos a partir destas espécies vegetais e 76% dos extratos alcoólicos continham níveis elevados de toxicidade.
Segundo os pesquisadores, esses achados reforçam a necessidade de saber que métodos tradicionais de preparação assumem diferentes níveis de toxicidade de acordo com o solvente escolhido para a preparação de um remédio medicinal.
O Peru é um país rico em biodiversidade, com uma tradição milenar de curandeiros que usam a flora nativa em remédios medicinais. A medicina tradicional é uma prática comum na região andina, onde as mesmas plantas usadas anos atrás ainda são conhecidas hoje por seus poderes de cura.
"A medicina tradicional é uma fórmula importante para resolver questões de saúde, mas através deste estudo quisemos mostrar que os remédios podem conter ingredientes potencialmente perigosos e precisam ser preparados com substâncias corretamente coletadas", afirma o pesquisador Rainer Bussmann.
As plantas utilizadas neste estudo foram coletadas no campo, em mercados públicos e nas casas de curandeiros no norte do Peru. Botânicos reuniram materiais de cada uma das 341 espécies de plantas medicinais tradicionais, secaram as folhas e as processaram em um moedor industrial. Duas amostras de material vegetal foram tiradas de cada espécie. Uma amostra foi submersa em 96% de etanol por sete dias, e a outra em água destilada fervente por um dia, ambos métodos tradicionais de preparações extratos de plantas.
Camarões de água salgada (Artemia sp.), pequenos invertebrados que habitam na água do mar e outros ecossistemas salinos, são frequentemente usados em estudos laboratoriais para avaliar os valores de toxicidade dos extratos de plantas. Na pesquisa, as larvas de camarão foram submersas em 501 frascos de soluções de extrato aquoso e alcoólico de planta, e os cientistas mediram suas taxas de mortalidade após 24 horas.
Testes dos extratos aquosos apresentaram valores de toxicidade elevados em 55 do total de espécies de plantas, com 18 espécies com valores de toxicidade mediana e mais 18 espécies com baixa toxicidade. Os extratos alcoólicos se mostraram significativamente mais tóxicos, com 220 espécies de plantas com valores de alta toxicidade, 43 tendo toxicidade mediana e 23 mostrando baixa toxicidade.
"Os métodos de preparação por curandeiros estão levando isso em conta, e remédios mais tradicionais, tais como chás medicinais são feitos com água simples em vez de extratos alcoólicos, evitando assim potenciais efeitos tóxicos em pacientes. No entanto, o conhecimento tradicional sobre o uso de plantas medicinais está sendo rapidamente destruído e muitas destas espécies estão ameaçadas de extinção. Cerca de quatro em cada cinco pessoas nos países em desenvolvimento dependem de plantas para os seus cuidados de saúde primários, assim, estudos como este são vitais para garantir que a base de conhecimento dos curandeiros tradicionais seja reforçada e expandida para o benefício das gerações futuras", ressalta Bussmann.
Os resultados mostraram ainda que enquanto a maioria dos extratos feitos a partir de plantas colhidas simultaneamente mostrou níveis de toxicidade similares, outras espécies de plantas coletadas em diferentes momentos variaram de não-tóxicas para altamente tóxicas.
Segundo os pesquisadores, estudos futuros vão investigar se a época da colheita e a localidade ou uso de partes de plantas específicas podem contribuir para uma redução de toxicidade nestas plantas usadas com frequência.