Saúde Pública
publicado em 29/09/2011 às 14h54:00
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UCLA

Estudo conduzido por pesquisadores da University of California, nos Estados Unidos, sugere que grandes compahias de tabaco estão cientes há mais de quatro décadas de que a fumaça do cigarro contém partículas alfa radioativa causadoras de cêncer, mas não levaram esta informação ao conhecimento do público.

Análise de dezenas de documentos internos da indústria do tabaco, disponibilizados em 1998 como resultado de uma nova lei, revelou que a indústria estava ciente da radioatividade do cigarro cerca de cinco anos mais cedo do que se pensava anteriormente e que as empresas de tabaco, preocupadas com o potencial risco de câncer de pulmão, começaram investigações sobre os possíveis efeitos da radioatividade sobre os fumantes já nos anos de 1960.

Segundo os autores da pesquisa, os documentos mostram que a indústria estava bem ciente da presença de uma substância radioativa no tabaco já em 1959. "Além disso, a indústria não era apenas ciente do potencial canceroso em fumantes regulares, mas também fez cálculos radiobiológicos quantitativos para estimar a dose de absorção no pulmão de partículas alfa ionizantes emitidas da fumaça do cigarro", afirmaram os pesquisadores.

O estudo acrescenta novas evidências a um corpo de pesquisa que detalha o conhecimento da indústria sobre a radioatividade da fumaça do cigarro e os esforços para suprimir essa informação. "Eles sabiam que o fumo do cigarro era radioativo na época e que poderia potencialmente resultar em câncer, e eles deliberadamente mantiveram a informação em segredo. Especificamente, nós mostramos aqui que a indústria utilizou declarações enganosas para ofuscar o perigo das partículas alfa ionizantes e, o mais importante, proibiu toda e qualquer publicação sobre a radioatividade derivada do fumo do tabaco", afirmou o primeiro autor do estudo, Hrayr S. Karagueuzian.

A substância radioativa foi identificada em 1964 como o isótopo de polônio-210, que emite radiação alfa cancerígena. Polônio-210 pode ser encontrado em todas as marcas nacionais e estrangeiras de cigarro e é absorvido pelas folhas de tabaco por meio do gás radônio da atmosfera e de fertilizantes fosfatados utilizados por produtores de tabaco. A substância acaba sendo inalada pelos fumantes e chega aos pulmões.

O estudo descreve as crescentes preocupações da indústria sobre o risco de câncer apresentado pela inalação do polônio-210 e a pesquisa que cientistas estão conduzindo ao longo de décadas para avaliar o efeito potencial do isótopo radioativo sobre fumantes - incluindo um estudo que quantitativamente mediu o tamanho da exposição do pulmão à radiação em fumantes que consomem dois maços por dia durante um período de duas décadas.

Karagueuzian e colegas fizeram cálculos independentes usando dados acadêmicos e da indústria e chegaram a resultados que refletiram aqueles do estudo liderado pelas companhias quase um quarto de século atrás. Eles então compararam esses resultados com as taxas utilizadas pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) para estimar o risco de câncer de pulmão entre os indivíduos expostos a uma quantidade similar de gás radônio emissor de partículas alfa em suas casas. "Os dados recolhidos a partir dos documentos sobre os parâmetros relevantes radiobiológicos das partículas alfa nos permitiu duplicar a estimativa levantada pela indústria sobre a radiação absorvida pelos fumantes regulares ao longo de 20 e 25 anos do período, o equivalente a 40 a 50 rads. Estes níveis de rads, de acordo com estimativa da EPA sobre o risco de câncer de pulmão em residentes expostos ao gás é igual a 120-138 mortes por mil fumantes regulares ao longo de um período de 25 anos", observou Karagueuzian.

Apesar do risco potencial de câncer de pulmão, as empresas de tabaco se recusaram a adotar uma técnica descoberta em 1959, e outra descoberta em 1980, que poderiam ter ajudado a eliminar o polónio-210 do tabaco. A técnica, conhecida como lavagem ácida, foi altamente eficaz na remoção do radioisótopo de plantas de tabaco, onde eles formam um complexo insolúvel em água.

E enquanto a indústria frequentemente relatou preocupações sobre o custo e o impacto ambiental possível como justificativas para não usar a lavagem ácida, os pesquisadores do estudo atual descobriram documentos que dizem indicar que o motivo pode ter sido muito diferente. "A indústria estava preocupada que o ácido pudesse ionizar a nicotina, tornando-a mais difícil de ser absorvida pelo cérebro de fumantes privando-os da dependência. O setor também estava bem consciente de que a técnica por um período de um ano também não eliminaria o polônio-210, que tem uma meia-vida de 135 dias", relatou o pesquisador.

De acordo com Karagueuzian, as partículas alfa insolúveis se ligam a resinas na fumaça do cigarro, ficam presas e se acumulam nas bifurcações brônquicas dos pulmões, ao invés de se dispersarem por todo o pulmão. De fato, pesquisas anteriores sobre as autópsias de pulmão de fumantes que morreram de câncer de pulmão, mostraram que tumores malignos estavam localizados principalmente nas mesmas bifurcações brônquicas onde estes pontos de concentração residem. "Costumávamos pensar que apenas os produtos químicos nos cigarros estavam causando câncer de pulmão. Mas esses pontos de concentração constituem um forte argumento para uma maior probabilidade de desenvolvimento de longo prazo de neoplasias malignas causadas por partículas alfa. Se tivermos sorte, as células irradiadas por partículas alfa morrem. Se não, podem sofrer mutações e se tornarem cancerosas", explicou.

Karagueuzian disse que as descobertas são muito oportunas já que em junho de 2009 foi aprovada a Lei da Prevenção do Tabagismo da Família e a Lei de Controle do Tabaco, que concede à agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA (FDA) autoridade ampla para regular e eliminar substâncias nocivas - com exceção da nicotina - de produtos do tabaco. " A pesquisa constitui um forte argumento de que o FDA deve considerar a remoção de partículas alfa de produtos do tabaco como prioridade. Tal medida poderia ter um impacto considerável na saúde pública, devido à percepção gráfica do público sobre os perigos da radiação", disse ele.

Para descobrir as informações, Karagueuzian e a equipe vasculharam os documentos internos da indústria do tabaco disponibilizados online como parte do acordo 1998 Tobacco Master Settlement. Documentos da Philip Morris, R. J. Reynolds, Lorillard, Brown I Williamson, The American Tobacco Company, Tobacco Institutes e o Council for Tobacco Research, assim como the Bliley foram examinados.

Segundo Karagueuzian, o primeiro nexo de causalidade entre as partículas alfa e o câncer foi feito por volta de 1920, quando o rádio emissor de partículas alfa foi usado para pintar números luminescentes nos mostradores dos relógios. A pintura foi feita à mão e os trabalhadores comumente usaram os lábios molhar a ponta do pincel. Muitos trabalhadores acumularam encargos significativos de partículas alfa por meio da ingestão e absorção de rádio-226 para os ossos e, posteriormente, desenvolveram câncer maxilar e de boca. A prática acabou sendo interrompida.

Outro exemplo envolve o câncer de fígado em pacientes expostos a doses baixas de partículas alfa emitidas de depósitos pouco solúveis de dióxido de tório após receberem o agente de contraste Thorotrast. Tem sido sugerido que o câncer de fígado resultou de mutações pontuais do gene supressor de tumor p53 pelas partículas alfa acumuladas presente no meio de contraste. O uso de Thorotrast como agente de contraste também foi interrompido na década de 1950.

Fonte: Isaude.net
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