Algumas vacinas são administradas em apenas uma dose, outras precisam de um reforço ou dois para manter a imunização. E depois há a vacina da gripe, que dura apenas um ano. As linhagens de vírus influenza mudam tanto de ano para ano que novas vacinas devem ser desenvolvidas anualmente para atingí-los. Agora cientistas de Howard Hughes Medical Institute (HHMI) descobriram um anticorpo humano que reconhece muitas linhagens de gripe diferente.
Compreender mais sobre este anticorpo pode ajudar os cientistas a projetar uma vacina mais duradoura contra o vírus influenza. A pesquisa foi publicada na edição de 08 de agosto de 2011, da Proceedings of the National Academy of Sciences.
Para encontrar o anticorpo, o pesquisador Stephen C. Harrison, da Harvard Medical School e do Hospital Infantil de Boston, aproveitou-se da diversidade do sistema imunológico humano. "Nosso objetivo é entender como o sistema imunológico seleciona anticorpos e usar essa informação para obter melhor forma de como fazer uma vacina que irá levá-lo em uma direção que favorece a amplitude mais especifica", disse Stephen C. Harrison.
Quando administrada a vacina da gripe, o corpo de cada pessoa vai produzir anticorpos ligeiramente diferentes. Os anticorpos são pequenos em comparação com o vírus da gripe, mas eles precisam reconhecer apenas um pedaço da casca exterior do vírus para serem eficazes. Isto significa que dentro da população humana, há grande diversidade quando se trata de anticorpos que reconhecem a gripe. Por exemplo, algumas pessoas vão produzir um anticorpo contra uma parte do vírus, enquanto outras têm anticorpos que reconhecem um trecho diferente e assim por diante.
Linhagens de vírus da gripe diferem uma da outra em grande parte nos genes que codificam moléculas de superfície chamado glicoproteínas, que são os alvos primários do sistema imunológico. Como uma camada de armadura, a hemaglutinina e a neuraminidase se fixam na superfície de proteínas da partícula do minúsculo vírus influenza. Quando o vírus sofre mutações é essencialmente uma mudanã na forma da superfície, que o torna irreconhecível para o sistema imunológico. Esta é a essência de evasão imune, uma característica da influenza.
Para estudar como o sistema imunitário determina a produção de anticorpos, Harrison e colaboradores da Universidade Duke focaram em uma nova tecnologia que permite analisar rapidamente as moléculas das células de defesa. "O que isso nos permite fazer é obter um instantâneo dos diferentes tipos de anticorpos, sendo feita em uma pessoa em resposta a uma vacina", diz Harrison.
Enquanto a equipe de pesquisa foi tirar fotos de células do sistema imunológico, eles encontraram um anticorpo que não estavam esperando - um que reconheceu várias linhagens do vírus da gripe.
Há uma parte do vírus influenza que não pode mutar - a área de ligação que reconhece receptores nas células humanas. Se este pequeno receptor mutar, o vírus não é mais infeccioso. Os cientistas previam que os anticorpos não poderia destinar esta área pequena com tal especificidade.
"Por ter uma área de contato maior do que os receptores de vírus, foi assumido que um anticorpo pode direcionar a área de ligação ao receptor, mas ele ainda reconhece também áreas vizinhas mutáveis", explica Harrison. Isto significa que, se a área circundante se modifica, os anticorpos deixariam de se ligar.
Mas o novo anticorpo que os pesquisadores isolaram, chamado CH65, se liga tão bem no pequeno receptor, que não parece ser fortemente afetado se mudar a área circundante. Quando colaboradores da Food and Drug Administration dos EUA testaram o novo anticorpo contra 36 estirpes de gripe que surgiram entre 1988 e 2007, houve o bloqueio de 30 dessas linhagens.
Embora esse conhecimento possa teoricamente ser usado para desenvolver uma vacina que estimula a produção do anticorpo CH65, isso poderia apenas empurrar vírus em direção a uma mutação na área circundante, o que tornaria a vacina obsoleta. Em vez disso, Harrison pretende usar o CH65 para investigar como o sistema imunológico escolhe quais anticorpos vai produzir. Se uma pessoa pode produzir o CH65, por que não todas as pessoas? Os cientistas podem aprender a persuadir o sistema imunológico humano a produzir CH65?
Harrison está agora colaborando com o pesquisador de HHMI Nikolaus Grigorieff, da Universidade Brandeis, para obter informações sobre a estrutura dos anticorpos, à medida que evoluem no sistema imunológico, após a administração da vacina. Ao tirar fotos estruturais de anticorpos ao longo do tempo, eles podem ser capazes de deduzir um padrão na forma como o sistema imunológico seleciona as estruturas de anticorpos favoráveis.
No entanto, outros podem usar o CH65 em um cenário clínico mais direto. "Alguns cientistas estão pensando em anticorpos terapêuticos, que podem ser administrados a pacientes com casos de gripe severa ou com o sistema imunológico comprometido, como forma de combater o vírus. E este anticorpo seria uma molécula muito interessante para isso", diz Harrison.