Ciência e Tecnologia
publicado em 17/08/2009 às 20h23:00
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No início do ano, um surto de gastroenterites em um cruzeiro de luxo, causado por um norovírus, ganhou destaque no noticiário. Apesar de ser pouco conhecido do público, o vírus transmitido por água e alimentos contaminados é um importante causador de gastroenterites não bacterianas no Brasil. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) acabam de desenvolver um método inédito para diagnosticar sua presença em alimentos - por enquanto, em verduras e queijo artesanal. A técnica poderá ser importante para o desenvolvimento de políticas de vigilância sanitária para casos de contaminação por vírus, ainda inexistentes no país.

A pesquisadora Marize Miagostovich, do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC, responsável pela pesquisa, explica que os norovírus estão muito associados a surtos em locais confinados ou de contato próximo, numa mesma família, em navios, asilos e ambientes hospitalares, por exemplo. " A transmissão de pessoa para pessoa ocorre com facilidade e, diferentemente de outros vírus causadores de gastroenterites, o norovírus afeta com frequência indivíduos adultos, o que facilita a ocorrência desse tipo de surto" , afirma.

Para o trabalho de prevenção e controle da doença, segundo Marize, é importante determinar a origem da contaminação. " Até agora eram raros e de difícil padronização os testes capazes de indicar a contaminação de alimentos por vírus" , explica a pesquisadora. " O novo procedimento já se mostrou eficaz na detecção do norovírus em amostras de alface e de queijo artesanal tipo Minas" , detalha. A técnica é derivada do método utilizado no laboratório para detecção do norovírus e de outros vírus de veiculação hídrica, como o da hepatite A, em amostras de água suspeitas de contaminação.

Testes baseados no ácido nucleico viral

Para chegar ao novo método, os pesquisadores inocularam norovírus obtidos a partir de amostras fecais infectadas, em folhas de alface e na superfície de amostras de queijo, alimentos que podem ser contaminados facilmente durante sua manipulação. " Uma parceria com o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) permitiu o processamento das amostras em um aparelho chamado stomacher, que simula a digestão humana" , conta Marize. " Em seguida, a solução passou por processos de filtração e de concentração viral, antes de ser analisada por metodologias moleculares, que até o momento constituem a única maneira de se detectar a presença dos vírus em alimentos" .

O novo procedimento teve origem no trabalho já adotado no IOC para a análise de amostras de água suspeitas de contaminação. Referência regional para o diagnóstico de rotavírus A, o Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do Instituto aprimorou, nos últimos cinco anos, um método originalmente descrito por pesquisadores japoneses para verificar a presença dos principais vírus de veiculação hídrica. " Adaptamos o método para identificar a contaminação de alimentos e escolhemos como primeiros alvos folhas verdes e laticínios, por fazerem parte da dieta do brasileiro" , conta a pesquisadora.

Marize aponta as vantagens do método em comparação a outros semelhantes: " Utilizamos substâncias inorgânicas, como ácidos, na etapa de reconcentração do vírus, o que evita que os resultados dos testes moleculares sejam mascarados, como acontece em outros métodos" , explica. " Para a análise de amostras de água o teste também é muito prático, pois são necessárias amostras de apenas 2 litros, enquanto outros métodos necessitam de até 100 litros" .

Desafio para a ciência e a saúde pública

Para Marize, esse pode ser o primeiro passo para um trabalho de monitoramento e controle sanitário para vírus. " Não existe legislação específica para esse fim, as metodologias necessárias ainda estão sendo desenvolvidas" , acredita. " O objetivo também é diminuir os custos desses processos que, por serem baseados em biologia molecular, ainda são caros e não podem ser realizados nos Laboratórios Centrais de Saúde Pública, por exemplo" .

Além de importante para saúde pública, o desenvolvimento de métodos como esse pode ter implicações econômicas. " As legislações internacionais estão sendo cada vez mais rígidas para o controle microbiológico e a investigação de vírus, particularmente os gastroentéricos, já está sendo exigida para a entrada de alimentos em diversos países" , explica a pesquisadora.

Para os padrões da ciência, a descoberta dos norovírus é recente. Embora os pesquisadores acreditem que eles sempre estiveram presentes no ambiente e suspeitem que estão associados a surtos de gastroenterite antes inexplicáveis, sua descrição ocorreu apenas na década de 1970. " Ainda conhecemos pouco sobre a dezena de subtipos existentes de norovírus. Não sabemos como ocorre a replicação no interior das células e não conseguimos estabelecer modelos animais para entender melhor a patogênese da doença" , afirma Marize. " Sua presença só pôde ser constatada com o desenvolvimento de técnicas moleculares de amplificação genômica, que ainda são caras e não acessíveis a qualquer laboratório público do país, por exemplo" .

Como Laboratório de Referência Regional para o diagnóstico de rotavírus A, o Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC já faz, desde 2005, a análise de amostras de água suspeitas de contaminação, em casos de surtos de gastroenterites não bacterianas. " Temos encontrado um percentual muito grande de norovírus, em especial nos surtos com casos em adultos" , afirma Marize.

Gastroentrites virais

A gastroenterite viral é transmitida por meio de água contaminada, alimentos manipulados por pessoas infectadas ou contato direto com o material fecal de uma pessoa doente. Existem diversos vírus responsáveis pela etiologia das gastroenterites, com destaque para rotavírus A, norovírus, adenovírus entéricos e astrovírus. Os sintomas mais comuns são diarréia, vômito, febre e dores abdominais e de cabeça. Existe vacina apenas contra o rotavírus A e não há tratamento especifico para a doença, apenas os sintomas são combatidos. A recomendação central é evitar a desidratação e procurar auxílio médico. A gravidade pode variar de pessoa para pessoa, mas, em geral, os sintomas costumam desaparecer depois de dois ou três dias.

Fonte: FIOCRUZ
   Palavras-chave:   Gastroenterites    Norovírus    Novo método    Diagnóstico    Instituto Oswaldo Cruz   
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