Atualmente são conhecidas 600 espécies de alho e o gênero Allium é frequentemente referência em estudos e utilizado em medicina devido às propriedades antimicrobiana e antiviral, entre outras. Com base no Allium sativum, comumente consumido no Brasil, e no Allium tuberosum, o conhecido alho nirá, que compõe a culinária japonesa, o professor de química do Cotil (Colégio Técnico de Campinas), da Unicamp, Paulo César Venancio pesquisou as atividades antimicrobianas dessas espécies em ratos, comparando-as com o conhecido antibiótico amoxicilina.
Para chegar à escolha do alho, Venancio pesquisou inicialmente quais as plantas que apresentavam melhor eficácia contra infecção, mais especificamente no combate aos Staplylococcus aureus, frequentemente isolado na pele, glândulas cutâneas e em mucosas.
Ao justificar a seleção da bactéria, o docente esclarece que ela, que faz parte da microbiota humana, ao encontrar condições favoráveis, pode entrar na corrente sanguínea e se alojar em vários órgãos ou tecidos e causar efeitos devastadores. Lembra a propósito que a bactéria é uma das maiores responsáveis pelas infecções hospitalares. Moveu-o, ainda, o fato de a Anvisa ter lançado em 2010 uma relação de plantas medicinais em que o alho, tradicionalmente considerado antisséptico, tem esse efeito destacado.
O pesquisador, entretanto, enfatiza que o estudo teve por objetivo principal avaliar in vivo a atividade antimicrobiana de extratos dos dois alhos mencionados sobre a infecção estafilocócica em ratos. Paralelamente, determinou as mesmas atividades in vitro, ou seja, com bactérias cultivadas em laboratório. A comparação dos resultados obtidos nos dois estudos permitiu aventar eventuais efeitos fisiológicos sobre os animais. Mais ainda: para estabelecer parâmetros com outros trabalhos desenvolvidos, Venancio determinou a composição química dos extratos, ou seja, a qualidade e a quantidade de substâncias neles presentes, o que possibilitaria confirmar aquelas responsáveis pelo principio ativo.
Sintetizando, Venancio esclarece que a proposta foi a de determinar por cromatografia gasosa a composição química das soluções aquosas e hidroalcoólicas à base de A. tuberosum e A. sativum; verificar a sensibilidade dessas soluções por meio de testes de concentração inibitória e bactericida mínima; e comparar o efeito de extratos dos dois alhos com o da amoxicilina, costumeiramente utilizada contra infecção.
Segundo o pesquisador, o trabalho foi orientado na busca de uma alternativa para combater as infecções bacterianas mais incidentes hoje. " Os antibióticos utilizados são específicos para cada tipo de cepa de bactérias,observando-se cada vez mais o aumento de suas resistências a eles. A ideia foi então a de buscar alternativas junto à natureza que possam vir a somar como possibilidades a mais no controle das infecções bacterianas" , afirmou.
Para Venancio, o resultado das análises dos extratos revelou a presença de compostos orgânicos e organossulfurados responsáveis pela ação antimicrobiana e provavelmente resultantes da degradação da alicina presente no alho.
Os testes in vitro confirmaram a ação antimicrobiana do A. sativum, mas surpreendentemente mostraram que esse efeito não se manifesta no caso do A. tuberosum.
No modelo utilizado para os ratos, os extratos dos dois alhos mencionados nas diferentes concentrações utilizadas foram capazes de diminuir de maneira eficaz e comparável à amoxicilina a infecção estafilocócica.