Saúde Pública
publicado em 28/10/2010 às 15h00:00
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Foto: Antoninho Perri / Ascom - Unicamp
A bióloga Maria Clara Duarte Fregolente, responsável por um avanço significativo na caracterização genética do picobirnavírus (PBV)
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A bióloga Maria Clara Duarte Fregolente, responsável por um avanço significativo na caracterização genética do picobirnavírus (PBV)

Pesquisa conduzida pela bióloga Maria Clara Duarte Fregolente é responsável por um avanço significativo na caracterização genética do picobirnavírus (PBV), detectado em amostras fecais de diferentes hospedeiros como cachorros, cavalos, coelhos, roedores e cobras. O fato de existir uma semelhança entre PBV encontrado em animais e humanos acende uma " luz amarela" no que diz respeito a possíveis casos de zoonose doenças transmissíveis do animal para o homem. A transmissão se dá por via fecal-oral, portanto trata -se de um vírus entérico, que é eliminado e detectado nas fezes e que tem penetração pela boca. " Se a pessoa tiver contato manual com as fezes de animais infectados e não fazer a higiene correta, pode ter os vírus introduzidos em seu organismo" , afirmou a bióloga.

Identificado pela primeira vez em estudos realizados para a detecção de rotavírus em fezes de crianças, o PBV é um patógeno que, aparentemente, não possue uma associação com a diarréia. No entanto, em indivíduos imunocompromissados, como pacientes HIV-positivos ou transplantados, essa associação fica mais evidente. " O que parece é que o PBV é um patógeno oportunista, porque se está presente e associado com outros agentes e/ou fatores pode agravar o quadro de diarréia. Porém, sozinho, não compromete" , garantiu a bióloga. Por isso, alertou, o cuidado com a higiene é fundamental, já que os estudos ainda estão em fase inicial e não existem vacinas tampouco medicamentos antivirais específcos. O trabalho resultou na tese de doutorado de Fregolente, orientada pela professora Maria Silvia Viccari Gatti, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp.

A ligação da pesquisadora com o PBV surgiu ainda na graduação, na iniciação científica, quando também trabalhou com cultura de células para produção de rotavírus e adenovírus. O que era para ser mestrado passou direto para o doutorado e, num primeiro momento, o objetivo foi fazer o sequenciamento completo do PBV. Trata-se de uma espécie que tem genoma de RNA dupla-fita com dois segmentos.

A pesquisadora chamou a atenção para o fato de que apenas PBV de humanos têm seus segmentos genômicos com sequenciamento completo publicado na literatura. A partir daí e pelo fato de o laboratório ter muitas amostras de animais surgiu o interesse de fazer o sequenciamento dos segmentos genômicos e comparar as sequências de nucleotídeos de PBV de humanos e animais. Porém, vários protocolos foram testados e nenhum deles permitiu obter as sequências completas. " Conseguimos sequências menores, de 200 pares de bases de um dos segmentos e a análise foi feita a partir dessa informação" , disse.

Mesmo não obtendo o sequenciamento completo, a pesquisadora comentou que os resultados obtidos foram não só importantes como também muito interessantes. Ela ressaltou que encontrou uma variação na sequência de nucleotídeos dos PBV muito grande e em alguns animais foi constatado que estavam sendo infectados por dois tipos diferentes de PBV. " São tão diferentes que fca difícil a comparação entre eles" , reforçou.

Existem, de acordo com Fregolente, poucas sequências totais disponíveis em bancos de dados sobre PBV. Para ampliar essa quantidade é necessário ter uma sequência base e, a partir dela, desenhar os iniciadores. Porém, como se trata de um vírus RNA, é preciso antes fazer uma transcrição reversa, transformando-o em DNA. A bióloga explicou que a partir das sequências disponíveis não foi possível estabelecer nenhum iniciador capaz de funcionar nas sequências de PBV de animais.

Isso porque a informação existente nos bancos de dados é de PBV de humanos e pode existir alguma diferença para o PBV de animal que impeça o alinhamento correto do iniciador nas sequências. " Como existe muita diversidade, isso é possível. As técnicas que estão disponíveis na literatura eu não consegui fazer funcionar" , lamentou. Além disso, é bem possível que, pelo fato da amostra ficar armazenada por muito tempo, ocorra a degradação do RNA.

A bióloga esclareceu ainda que a sequência que todos os pesquisadores conseguem amplificar e na qual ela baseou seu estudo é de uma enzima do vírus. O desafo está agora em sequenciar o outro segmento que codifica as proteínas externas, que formam o capsídeo viral. " Os anticorpos que os animais produzem são exatamente contra essa proteína que fca exposta. Conhecer a sequência da proteína externa será muito importante para obter novas informações" , advertiu.

Contribuição acadêmica

Fregolente considera que foi fundamental apresentar novas sequências de PBV identificados em outros animais e até então inexistentes na literatura. "É importante disponibilizar esses dados já que são poucos os grupos que trabalham com esses agentes que têm despertado interesse para estudos em outros continentes, recentemente" disse. Ela ressaltou ainda que o Comitê Internacional de Taxonomia Viral aceitou a proposição para um sistema de classifcação para o PBV, enquanto família, gênero e espécie. No entanto, as espécies tipo existentes são apenas PBV de humanos e de coelhos, porque foram os primeiros a serem sequenciados.

Além da classificação até o nível de espécie, os PBV também são classificados em genogrupos, o que é considerado inadequado pela pesquisadora. Para se fazer uma classificação correta é importante que se tenha uma maneira de conseguir detectar todos os tipos de PBV por métodos de biologia molecular e, a partir do sequenciamento, poder separar as diferenças e as igualdades visando montar um sistema de classificação mais efciente.

" Sugerimos também a existência de quasiespécies, que é um fenômeno natural que ocorre em vírus de RNA, especificamente" , disse a bióloga. Trata-se de um momento da evolução dos vírus, no qual eles produzem diferentes mutantes para conseguir se estabelecer. Todas as possíveis mutações são realizadas pelo vírus até que ele encontre aquela que melhor se adapte ao meio. Fregolente revelou que foram encontradas essas mutações de ponto em cada uma dasências analisadas. " Isso caracteriza variados genomas dentro de uma única população viral" , concluiu.

Fonte: UNICAMP
   Palavras-chave:   Picobirnavírus    Animal    Humano    Hospedeiro    Unicamp   
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