Geral
09.08.2010

Exposição à luz intensa pode reduzir a sonolência de jovens universitários

Pesquisa da USP avaliou os efeitos da exposição à luz para reduzir a sonolência durante as aulas noturnas em tal público

Foto: Divulgação/USP
Estudantes são expostos à luz intensa durante pesquisa da USP
Estudantes são expostos à luz intensa durante pesquisa da USP

Jovens trabalhadores universitários sofrem déficit crônico de sono, decorrente da jornada dupla que envolve trabalho durante o dia e estudo à noite. Além do sono, alguns hábitos e estilos de vida como dieta rica em gorduras, consumo de álcool e falta de atividade física contribuem ainda mais para o quadro preocupante.

As conclusões são de uma pesquisa conduzida na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), que tem investigado as repercussões na saúde e na qualidade de vida de universitários. Um dos trabalhos do grupo avaliou os efeitos da exposição à luz para reduzir a sonolência durante as aulas noturnas em tal público.

De acordo com Frida Marina Fischer, professora titular da FSP-USP, estudos realizados anteriormente avaliaram a privação de sono decorrente da dupla jornada (trabalho e estudo) entre jovens estudantes do ensino médio em escola pública, que trabalham e estudam à noite. Entre esses jovens, a sobrecarga decorrente da longa vigília e da redução de sono é um problema de dimensões mais severas, pois há milhões de jovens brasileiros nessa condição.

" O problema com os jovens no ensino médio em dupla jornada é mais grave quando comparados aos jovens adultos, por atingir indivíduos em formação, menores de 18 anos. Estima-se que uma parte dos jovens trabalhadores que desistem do ensino médio o fazem devido à intensa fadiga e sonolência associadas à dupla jornada de trabalho e estudo" , disse a coordenadora do estudo à Agência FAPESP .

A partir desses estudos anteriores que tiveram apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) , o grupo coordenado por Frida desenvolveu outro projeto para avaliar se a luz intensa poderia resultar na diminuição da sonolência durante ao período noturno das aulas, que vai das 19 horas às 22h30.

A pesquisa mostrou que quando os jovens universitários trabalhadores foram expostos à luz com intensidade de 8 mil lux, por 20 minutos, às 19 horas e às 21 horas, houve redução dos níveis da sonolência após a exposição à luz às 21 horas.

O trabalho, intitulado " Jovens universitários e as jornadas duplas de trabalho: repercussões na saúde e na qualidade de vida" , recebeu apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa Regular. Os resultados do estudo foram apresentados na 26th Conference of the International Society for Chronobiology, ocorrida em Vigo, na Espanha, em julho, e no 10º Latin American Symposium on Chronobiology, em Natal (RN), em outubro de 2009.

Participaram da pesquisa 27 jovens, entre 21 e 24 anos, provenientes da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e de outras unidades da USP na capital paulista.

Os jovens foram submetidos a uma exposição intensa de luz durante um dia. O experimento durou três semanas, sendo a primeira de referência, e na segunda e terceira semanas os jovens foram expostos à luz.

" Adaptamos uma sala na FEA com fontes de luz semelhantes a luminárias. Cada estudante ficou em frente à fonte por 20 minutos e foi exposto a uma intensidade de 8 mil lux às 19h ou às 21 horas" , explicou Frida.

Na primeira semana, chamada de referência, os jovens permaneceram em um dia, das 19 às 22 horas período em que a melatonina começa a ser secretada vendo um filme em uma sala com iluminação muito reduzida. A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, um marcador circadiano, que tem forte influência na regulação do ciclo vigília-sono.

" Coletamos amostras de saliva para analisar a quantidade de melatonina circulante. Durante as três horas os alunos permaneceram na sala escura. Somente poderiam tomar água, mas não comer. Se tivessem que ir ao banheiro, colocavam óculos escuros" , disse.

" Também foram coletadas amostras de saliva antes e após a exposição à luz para determinar a quantidade de melatonina, que é muito pequena, da ordem de picogramas por mililitro. Se houvesse qualquer resíduo de alimentos, por exemplo, poderia interferir nos resultados" , completou.

Na segunda e na terceira semana, os alunos foram submetidos à luz intensa de 8 mil lux durante 20 minutos, às 19 horas ou às 21 horas. A exposição não poderia prejudicar o sono nas 24 horas subsequentes, ou seja, o propósito da intervenção era reduzir a sonolência apenas durante o período escolar. " Uma das dificuldades para a realização do estudo se deu porque havia muitos critérios de exclusão" , afirmou Frida.

Fonte: FAPESP