Saúde Pública
04.06.2010

47% dos homens usuários de drogas apresentam disfunção sexual

Estudo da Uniad mostrou que o índice é maior do que o dobro quando comparado à média da população brasileira

Estudo realizado com 215 pessoas em tratamento de dependência química por álcool e outras drogas aponta que 47% dos homens apresentam alguma disfunção sexual. Número bem maior do que o encontrado pelo Estudo da Vida Sexual do Brasileiro (EVSB), realizado em 2004, com 7.103 brasileiros, no qual a prevalência do problema entre o gênero masculino foi de 18,2%.

De acordo com Alessandra Diehl, coordenadora da Enfermaria de Dependência Química da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad)) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora da pesquisa, o número é representativo e pode sim ser confrontado com a população geral. Entre os principais problemas relatados pelos entrevistados, a ejaculação precoce lidera, atingindo 39% deles, seguido pelo desejo sexual diminuído (19%), dificuldade de ereção (12%), retardo na ejaculação (8%) e dor durante a relação (4%).

A psiquiatra explica que o tabagismo, o alcoolismo e a dependência de drogas como maconha, cocaína e crack, são importantes fatores de risco para o desenvolvimento de disfunções sexuais, principalmente disfunção erétil nos homens. " O álcool e a nicotina, por exemplo, promovem alterações na arquitetura vascular de forma generalizada, atingindo órgãos vitais para o bom desempenho sexual" , afirma. " Já a cocaína, apesar de aumentar a libido, acaba, com seu uso crônico, fazendo o efeito contrário" .

Outras drogas de abuso, como o ecstasy, o crystal e o ácido gama-hidroxibutírico (GHB), também conhecido como " Boa Noite Cinderela" , aumentam a libido e, por esse motivo, são muito procuradas. No entanto, Alessandra alerta que o uso crônico acaba por prejudicar o desejo sexual e a busca por essas drogas passa a ser mais para aliviar sintomas de abstinência do que pelo prazer propriamente dito.

Beirando a promiscuidade

Um dado que também chamou a atenção dos pesquisadores foi o comportamento sexual de risco entre os entrevistados. Além de 41% deles não usarem preservativos durante a relação sexual e 27% usarem esporadicamente, a média de parcerias sexuais relatada foi de cinco ao ano. Quase duas vezes maior que a média recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de três ao ano, para o comportamento " não promíscuo" . Na população geral brasileira a média encontrada no EVSB foi de 1,47 parcerias entre as mulheres e, 2,96, entre os homens.

Segundo a pesquisadora, um dos principais motivos da busca por novas ou várias parcerias afetivas e sexuais nesta população tem relação com as características de poliusuários de drogas e/ou de crack, que demonstram extrema impulsividade e pobre avaliação de riscos, com necessidade urgente de satisfação imediata. " Uma das hipóteses também é que a grande maioria destes indivíduos apresente algum grau de lesão no lobo pré-frontal do cérebro, responsável pela nossa capacidade de organizar e tomar decisões" , diz. " O não uso do preservativo ou uso esporádico é outro comportamento que se mostra preocupante, pois temos, ao todo, 68% de indivíduos que precisam de intervenção e orientação profissional para diminuir riscos."

Atendimento diferenciado

Apesar de perceberem que algo não vai bem em sua vida sexual, apenas 12% dos usuários de drogas procuram ajuda médica e outros 12% atribuem o problema ao uso de substâncias psicoativas.

Para Alessandra, é primordial unir esforços para a intervenção precoce nestes indivíduos a fim de minimizar os danos. Entretanto, de acordo com ela, a grande maioria dos serviços destinados a dependentes químicos não têm, em sua grade de intervenções terapêuticas, a proposta de educação em saúde sexual de forma sistemática.

Há cerca de um ano, a Uniad de São Bernardo do Campo se dedica ao tema. Semanalmente uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional discutem, de forma lúdica, educativa e científica, mitos e verdades sobre o uso de preservativos, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, métodos contraceptivos, namoro e casamento. " Quando identificamos um problema sexual nos pacientes, ele é tratado individualmente, com acompanhamento multidisciplinar ou com medicamentos, se for o caso" .

Fonte: UNIFESP