Artigo
12.11.2013

O médico brasileiro e os ilusionistas da saúde

Fernando Weber Matos é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).

Foto: Cremers
Fernando Weber Matos, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers)
Fernando Weber Matos, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers)

A Medicina brasileira atravessa um período de turbulência. Nunca os médicos foram tão afrontados e desafiados como agora, quando o governo federal, como um mágico de circo mambembe, tira da cartola um projeto supostamente capaz de estender a saúde aos mais carentes, moradores de áreas pobres e de municípios pequenos e distantes.

Na realidade, apesar dos esforços ilusionistas para negar o incontestável, o objetivo do programa Mais Médicos é trazer ao Brasil milhares de médicos cubanos, entre eles, a reboque, centenas de médicos brasileiros formados em Cuba que não conseguiram revalidar seus diplomas dentro do que estabelece a legislação brasileira, comprovando suas limitações para exercer a medicina no País. Agora, com o programa, a porteira ficou escancarada.

Com essa iniciativa, que custará aos cofres públicos abastecidos com dinheiro do contribuinte mais de meio bilhão de reais, o governo contribui com recursos financeiros para manter o regime castrista e, além disso, proporcionar trabalho a médicos cubanos itinerantes, que ficarão com a fatia menor desse bolo com aspecto abatumado.

Na origem dessa situação está o descaso de sucessivos governos com a saúde pública, sempre destacada nos palanques eleitorais, mas sufocada nos gabinetes de todos os matizes. O financiamento tem sido insuficiente ano após ano, mas está claro que é grande também a responsabilidade dos gestores. A má gestão da saúde decorre muito da incompetência, do amadorismo e, principalmente, da desinformação sobre a realidade da saúde.

Os gestores, em vez de procurar as verdadeiras causas do caos em que a saúde se encontra, de maneira simplista e demagógica induzem o povo brasileiro a pensar que são os médicos os culpados pelas péssimas condições de atendimento. Na verdade, os médicos também são vítimas, porque não conseguem exercer a medicina da maneira mais adequada, ou seja, oferecendo aos pacientes todos os recursos necessários a um atendimento digno.

Na ânsia de justificar a vinda de médicos diplomados no exterior sem fazer revalidação, acusam o médico brasileiro de não querer atender em postos de saúde da periferia e em pequenos municípios. Escamoteiam, contudo, as condições de trabalho imperantes nesses locais, a ausência total de segurança, a falta de equipamentos e medicamentos, a falta de concursos públicos e também de contratos de trabalho, de plano de carreira, tudo isso agravado por salários muito baixos. Ao contrário, disseminam inverdades, como a oferta de salários elevados desprezados pelos médicos, passando à população a falsa ideia de que o médico é mercantilista.

Não faltou até quem comentasse, de forma irresponsável, que médico brasileiro desconhece o SUS e não atende com humanidade. O fato é que em todas as faculdades de Medicina os alunos desde logo trabalham com seus professores no atendimento a pacientes do SUS. Os médicos brasileiros conhecem, sim, a realidade e as carências dos pacientes. Quem diz o contrário demonstra ignorância ou até má intenção.

Os detratores dos médicos fingem, ainda, desconhecer que a residência médica é feita em hospitais públicos e com pacientes do SUS. Há anos trabalho em hospitais SUS, com alunos e residentes, e garanto que os pacientes são examinados e acompanhados com muita atenção e zelo por equipes de vários profissionais nas 24 horas do dia.

Enquanto isso, em meio ao caos da saúde, a promoção da saúde primária surge como solução imediata. São discursos demagógicos, porque a saúde primária só irá trazer resultados efetivos em longo prazo. Assim, é preciso manter o foco também na saúde curativa, que está hoje à beira da falência por falta de financiamento, excesso de pacientes e falta de condições de trabalho para os médicos.

Nos últimos anos, com a situação da economia no país estabilizada e em curva ascendente, os governantes tiveram tempo para mudar a saúde. Poderiam ter estruturado o setor, criando hospitais, regionalizando a saúde para reduzir a ambulancioterapia e a lotação absurda e desumana das emergências. Poderiam, também, ter criado um plano de carreira de Estado para os médicos, com salários dignos e compatíveis com o conhecimento técnico exigido e pela relevância de sua função e responsabilidade social.

Tivesse adotado as medidas necessárias em vez de pensar em planos onerosos e mirabolantes, o governo teria elevado a qualidade da medicina e dos serviços de saúde em geral de maneira constante e permanente. Ainda há tempo. Para isso, a União precisa investir na saúde o percentual que lhe cabe conforme a Emenda 29, como procedem os municípios e alguns estados. Infelizmente, o governo federal insiste em não fazer a sua parte.

Fonte: CFM