Ciência e Tecnologia
12.05.2011

Cientistas mostram como adversidade embota nossas percepções

Percepções aprendidas em um contexto adverso não são tão nítidas quanto aquelas aprendidas em outras circunstâncias

A adversidade, nos dizem, aumenta os nossos sentidos, imprimindo imagens e sons com precisão em nossas memórias. Mas a nova pesquisa do Weizmann Institute, em Israel, sugere exatamente o oposto: Percepções aprendidas em um contexto adverso não são tão nítidas quanto aquelas aprendidas em outras circunstâncias. Os resultados, que sugerem que essa tendência esteja enraizada na evolução de nossa espécie, podem ajudar a explicar como a síndrome do estresse pós-traumático e outros distúrbios de ansiedade desenvolvem-se em algumas pessoas.

Para investigar a aprendizagem em situações desfavoráveis, Dr. Rony Paz do Departamento de Neurobiologia do Instituto, juntamente com seu aluno Jennifer Resnik, submeteram os voluntários a aprender que alguns tons conduzem a um resultado ofensivo (por exemplo, um odor muito ruim), enquanto outros tons são seguidos por resultados agradáveis ou então, por nada. Os voluntários tiveram seus limiares de percepção testados mais tarde - ou seja, quão bem eles eram capazes de distinguir os "maus" e "bons" tons entre outros tons semelhantes.

Como esperado a partir de estudos anteriores, nas condições neutras ou positivas, os voluntários se tornaram melhores com a prática em diferenciar entre os tons. Mas, surpreendentemente, quando se viram expostos a um estímulo negativo, possivelmente perturbador, seu desempenho piorou.

As diferenças na aprendizagem eram realmente diferenças muito básicas na percepção. Depois de saber que um estímulo está associado a uma experiência extremamente desagradável, os indivíduos não poderiam distinguí-lo de outros estímulos semelhantes, embora pudessem fazê-lo antes, em condições normais. Em outras palavras, não importa o quão bem eles normalmente aprendem coisas novas, os indivíduos que receberam o "reforço adverso" perceberam os dois tons da mesma maneira.

Paz disse: "Isto provavelmente fazia sentido em nosso passado evolutivo: Se você já ouviu o som de um leão atacando, a sua sobrevivência pode estar em risco diante de um ruído que soa semelhante para você - assim, a mesma reação emocional é desengatilhada. Seus instintos, então, vão lhe dizer para correr, em vez de considerar se aquele som era de fato idêntico ao rugido do leão do outro dia ".

Paz acredita que essa tendência pode ser mais forte em pessoas que sofrem de síndrome de estresse pós-traumático. Como exemplo, ele aponta para os ataques terroristas de 11 de setembro em Nova York. Muitos dos que testemunharam os ataques às torres desenvolveram síndrome de estresse pós-traumático, que, para muitos deles, pode ser desencadeada por edifícios altos. Intelectualmente, eles podem saber que o edifício diante deles tem pouca semelhança com as torres destruídas, mas em um nível mais fundamental, instintivo, eles podem perceber todos os edifícios altos da mesma forma e, assim, associá-los com a destruição terrível.

A equipe científica está agora investigando esta ideia em pesquisa contínua na qual eles esperam, entre outras coisas, identificar as áreas do cérebro que estão envolvidas na definição dos diferentes níveis de percepção. Paz diz: "Pensamos que este é um truque do cérebro que evoluiu para nos ajudar a lidar com as ameaças, mas que agora é disfuncional em muitos casos. Além de revelar este aspecto fundamental da nossa percepção, esperamos lançar luz sobre o desenvolvimento de transtornos de ansiedade como a síndrome de estresse pós-traumático".

Fonte: Isaude.net