Ciência e Tecnologia
26.09.2010

Medicamento contra a Aids pode ser eficaz contra os vírus do herpes

Resultado do estudo é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma droga contra toda a família do Herpesviridae

Foto: Divulgação/IRB Barcelona
Estrutura da proteína UL89, que poderia ser um alvo válido contra todas as Herpesviridae (c) Laboratório de Miquel Coll.
Estrutura da proteína UL89, que poderia ser um alvo válido contra todas as Herpesviridae (c) Laboratório de Miquel Coll.

Cientistas do Instituto para Pesquisa em Biomedicina (IRB Barcelona), na Espanha, liderados pelo pesquisador Miquel Coll, publicaram um novo estudo que revela que o Raltegravir, a droga aprovada em 2007 para o tratamento da Aids, anula a função da proteína UL89, essencial para a replicação de um tipo de vírus do herpes. O estudo é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma droga contra toda a família do vírus do herpes.

"Estes resultados têm um impacto médico evidente por três razões. Primeiro, os humanos não têm a proteína viral que é afetada, o que permitiria uma droga altamente específica que não mostra efeitos secundários que outras drogas podem ter. Em segundo lugar, o inibidor não é tóxico para os seres humanos quando administrado em concentrações terapêuticas, porque ele já está no mercado e, assim, os testes de toxicidade são facilitados, e terceiro, nós temos dados que indicam que todos os vírus de herpes têm essa proteína. Assim, poderia ser um alvo válido contra todo Herpesviridae", explicou explica Miquel Coll.

Os vírus do herpes incluem patógenos, como o herpes simplex 1 e 2, o vírus que causa a catapora também conhecido como vírus do herpes zoster; o vírus Epstein-Barr, associado a vários tipos de câncer; o vírus roseola; o citomegalovírus e o vírus do herpes associado com sarcoma de Kaposi em pacientes com AIDS.

O citomegalovírus humano (HCMV), em que foi realizado o estudo, provoca defeitos neurológicos em 1% dos recém-nascidos nos países desenvolvidos. Também causa retinite que se deteriora em cegueira em 25% dos indivíduos com AIDS, defeitos no cérebro e sistema nervoso central de adultos jovens, inflamação do cólon, também naqueles com AIDS, mononucleose e doenças graves da garganta. Embora 90% dos adultos carreguem HCMV, esse vírus é oportunista, atuando em pessoas com sistema imunológico debilitado, como em pacientes com câncer, AIDS, pacientes que receberam transplante de órgão e recém-nascidos.

Para se replicar, o vírus do herpes entra no núcleo de uma célula, onde ele usa o mecanismo celular para copiar várias vezes o seu DNA em uma única cadeia de grandes dimensões. Uma vez que esta cópia foi feita, ela atua como um complexo chamado terminase, formado por três subunidades da proteína. O terminase corta o novo DNA em pequenos fragmentos, do tamanho de um único genoma viral, e os apresenta em conchas vazias (capsídeos) que se desenvolveram no núcleo da célula. Em seguida, os novos vírus deixam a célula para continuarem a infecção. Os investigadores identificaram a estrutura 3D de uma parte do terminase e quando observaram que se assemelhava ao do vírus da Aids, para a qual drogas estão disponíveis, eles testaram a proteína contra vírus da herpes. Assim, eles descobriram que Raltegravir atua na subunidade de UL89 da terminase e anula a função de "tesoura", que é necessária para a replicação viral. Os ensaios foram realizados diretamente sobre as proteínas em tubos de ensaio.

"Agora temos de fazer os ensaios em conjunto de células infectadas, melhorar o efeito da droga e validar que também seja eficaz para outros tipos de vírus do herpes", explica Miquel Coll.

Fonte: Isaude.net